quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Última viagem

Não pediram explicação. As férias fora de hora foram aceitas com alegria e sem questionamentos. Internamente, os irmãos teceram hipóteses que preferiram calar para não correr o risco de que os pais mudassem de ideia. E, assim, foram para o sítio.

Naquela quinta-feira, após o colégio, Fernando e Paola reuniram o que conseguiram de seus pertences favoritos para levar naquele feriado inesperado. Desconfiavam que a decisão dos pais de se retirarem no sítio, no meio do bimestre e sem qualquer lógica aparente, fosse uma tentativa de reunir a família, de se reconciliar após a briga calorosa da última noite. Os irmãos não compreenderam bem o motivo da discussão (um telefonema, gritos, choro, frases desconexas), mas preferiram cooperar com o que parecia uma tentativa de reaproximação dos membros familiares.

Durante a viagem de carro para a serra, os pais pareciam reconciliados, ainda que um tanto tensos. Os irmãos preferiram se manter ocupados com as próprias coisas, iPods, revistas em quadrinhos, de modo a não abalar a frágil reconciliação que se instalara. No sítio, no entanto, os adultos renderam-se ao alívio. Pareciam ir ficando mais e mais relaxados conforme o tempo passava.

Antes que os pais pudessem mudar de ideia, Fernando e Paola buscaram aproveitar o máximo do tempo com as atividades que só costumavam fazer no sítio. Penduraram-se nas árvores, ainda que sem muito jeito. Revezaram-se no balanço de pneu, tomaram banho de borracha vestidos, só porque parecia mais transgressor que mergulhar na piscina usando roupa de banho. Ensaiaram o preparo de um bolo, que nunca ficou pronto, porque os irmãos não sabiam exatamente como fazê-lo e porque era mais gostoso comer a mistura crua de ovos, manteiga e açúcar. Quando se cansaram dessas pequenas transgressões, partiram para o vídeo-game, até que Paola cochilasse e Fernando retomasse os gibis. Os canais estavam todos fora do ar, assim como as estações de rádio. Estranho. Mas a mãe havia lembrado de levar vários dvds. Menos mal.

A complacência dos pais em relação ao seu comportamento era inusitada e curiosa, mas os irmãos estavam satisfeitos demais para questionar. E assim passaram-se cinco dias, até que começaram a se sentir entediados, saudosos dos amigos e do colégio. Numa tentativa de animá-los, os pais começaram a brincar com eles, a propor jogos. O pai atendia um ou outro telefonema que pareciam deixá-lo um tanto preocupado, mas logo empenhava-se em se mostrar tranquilo e sorridente, sempre simpático ao que as crianças propunham.

De todos, a mais transformada pela mudança na rotina era a mãe. Antes agitada e tensa com os horários e o cumprimento dos afazeres, agora ela se mostrava leve, vagarosa e um tanto entorpecida. Sorria mais, falava menos, abraçava as crianças com frequência, alisando seus cabelos e bochechas e olhando-os como se tentasse resgatar algo perdido na memória.

Numa tarde, Paola questionou os pais. Até quando duraria o retiro? Ela estava certa de que a professora a repreenderia e de que teria um trabalhão imenso em copiar a matéria perdida. Além disso, sentia saudades das amigas.

"Falta pouco, querida. Partiremos em breve", respondeu-lhe a mãe com uma espécie de calma melancólica. "Por que não aproveitamos o tempo que nos resta criando mais uma brincadeira? Aproveitem, que não é sempre que temos essa chance".

"Parece que já inventamos tudo", reclamou Fernando. "Não consigo pensar em nada novo. Além disso, não para de chover lá fora".

"E se a gente brincasse de astronautas?", sugeriu o pai. "Vivemos no futuro e nossa galáxia foi devastada pela guerra. Somos um grupo numa missão secreta, em busca de refúgio em galáxias distantes. A gente improvisa aqui dentro mesmo".

"Puxa! Que original!", retrucou Paola, com ironia.

"Qual é? Duvido que tenha ideia melhor! Depois, a gente pode fazer pizza, que tal?"

"Ok! Vou querer de pepperoni, tá?" respondeu Fernando.

"Combinado. Combinadas?"

"Combinada."

"Ok."

A família improvisou a nave com o sofá, as cadeiras e as poltronas. As meninas se inspiraram nas princesas Leia e Amidala para arrumar os cabelos e a maquiagem, enquanto os rapazes utilizavam de forma intuitiva um jargão astronáutico compilado de vários filmes já assistidos. As crianças se divertiam corrigindo as maluquices inadequadas que a mãe inventava na tentativa de soar futurística. A brincadeira perdurava um tanto pela vontade de passar o tempo, mas também pelo prazer da encarnação mútua.

Num determinado momento, a mãe se dirigiu a uma das janelas, a fim de avaliar uma chuva de asteroides. Pôs uma mão em cima dos olhos e os apertou, como se mirasse o sol, embora fosse final de tarde e chovesse torrencialmente. Voltou-se para dentro com expressão consternada, a mão apoiada no estômago. Olhou para o marido e, após alguns segundos, fez um sinal afirmativo com a cabeça. O marido respondeu-lhe com o mesmo sinal e disse com voz empolada: "Tripulação. A tempestade é pior do que pensávamos. Sentem-se, apertem seus cintos. Vejo um buraco de minhoca bem à frente. Vou nos guiar até ele e, com sorte, encontraremos alguma galáxia mais segura que essa. Preparem-se e torçam pelo melhor".

Os irmãos entreolharam-se surpresos e risonhos com o empenho dos pais na execução de seus papéis e se sentaram de forma empertigada — ele ao lado da pai, ela ao lado da mãe, atrás —, fingindo afivelar os cintos.

"Vocês podem se sentir um tanto enjoados. Talvez queiram fechar os olhos".

A família sacudia braços e pernas, simulando turbulência. "Olhos fechados! Segurem-se. Estamos quase lá", gritou o pai.

Paola ria, divertindo-se mais do que gostaria de admitir com aquela performance um tanto ridícula, e, por um momento, o chão abaixo de si pareceu tremer de verdade. Quase ao mesmo tempo, as crianças perceberam um zumbido ao fundo de sua algaravia, que parecia aumentar, aproximando-se. "Estão ouvindo isso?", gritou Paola.

"Mantenham os olhos fechados, estamos quase chegando", gritou a mãe com um quase desespero na voz.

"Uhuuuul", gritava Fernando, tentando se segurar na cadeira.

"Lá vamos nóóós!", Paola ouviu de seu pai, já bastante abafado pelo zumbido agora mais alto.

"Mas que diabo?!" Paola abriu os olhos e percebeu uma sombra invadindo a sala. Virou-se na direção da janela e viu a escuridão se aproximando, precedida de uma nuvem de poeira. Começou a se virar na direção da mãe, mas esta já havia se jogado em cima dela, derrubando-a da cadeira e apertando-a contra o peito. À frente, pai e filho continuavam gritando, e Paola tentou se concentrar nesses gritos, somente neles, durante os poucos segundos que antecederam o choque do asteroide com a Terra.

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