segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Fazes-me falta



Há tempos ouço elogios à obra de Inês Pedrosa e vinha ensaiando um encontro com essa escritora portuguesa. Aproveitei um amigo-secreto recente entre leitores amigos para incluir o nome dela na minha lista de desejos. Se eu guardasse qualquer expectativa em relação ao que a estação natalina pudesse me proporcionar, poderia dar-me já por (muito mais que) satisfeita.

Publicado pela primeira vez em 2002, Fazes-me falta tem um enredo mínimo, o que dificulta-me a tarefa de tecer comentários mais detidos. É interessante manter-lhes a chance de ser arrebatados a cada página. Sei que soo exagerada, mas esse foi o efeito do livro em mim. Ao final da leitura, sentia-me exausta, enxovalhada pelo texto. Inclusive, recomendo que o leiam aos poucos, com vagar, porque não só o texto é bastante refinado em muitos momentos, como o tema é um tanto pesado.

O romance intercala monólogos de dois personagens, um homem e uma mulher, que tiveram uma relação amorosa pregressa e que não mais podem conviver. Eles falam um para o outro e suas mensagens compõem uma espécie de diálogo espiritual. Ela faleceu de forma abrupta e precoce e fala de um espaço-tempo post mortem, logo, ele não pode ouvi-la.

O título do romance pode dar a falsa impressão de que se trata de uma história açucarada e clichê, mas não é o caso. Em primeiro lugar, a relação entre os personagens escapa ao trivial. Eles tiveram um relacionamento amoroso, mas nos últimos anos eram apenas amigos que, apesar de muito diferentes, amavam-se muito. Esse amor que, no entanto, estava fora do âmbito carnal, é de uma complexidade difícil de descrever sem entregar o melhor do romance.



Os protagonistas discorrem sobre solidão, perda, saudades, mágoa. Consolam-se com as memórias e lamentam o que não foi possível, devido à distância que já se interpunha entre eles antes da morte abrupta da mulher. Suas falas são comoventes, mas também cativam, porque Pedrosa logrou em construir personagens ricos, verossímeis em seus defeitos, fraquezas, orgulhos, ingenuidades. Cada qual traz uma história repleta de peculiaridades que contrastam, se chocam e se somam quando em contato.

Descansa em paz. Fizeste uma morta bonita - mais bonita e serena do que alguma vez foste, cachopa. Compuseram-te a imagem. Disso vivem as figuras públicas, mesmo na morte. Viva a imagem. Talvez fosse melhor não te ter visto, não ter beijado a tua testa. Agarrei-me a essa derradeira nota do teu calor. Ficaste-me com um travo a incenso e flores mortas. O cheiro do amor vedado que abandonáramos pela paisagem da nossa pré-história. Chamo-lhe amor para simplificar. Há palavras assim, que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar. O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus —Pág. 11.



A abordagem dos sentimentos urdida por Inês Pedrosa transcende, almeja o sublime.  E tudo isso veiculado por uma prosa impecável, deliciosa, que nos apequena e agiganta a um só tempo. Fazes-me falta é um romance sensível, pungente, lírico, que me surpreendeu e aumentou belamente a minha lista de romances favoritos escritos por mulheres.


4 comentários:

  1. Esse livro está na minha lista há um tempão, quero ler agora nas férias. Fiquei com mais vontade depois de ler o post!

    (acompanho o blog, mas só hoje chegou a coragem de comentar - haha)

    Beijos!

    ResponderExcluir
  2. os livros da Inês são assim sempre, acho. Não sei gosto tanto dessa densidade toda, mas fico besta como ela maneja esse tom quase rebuscado. Estou começando livro hoje, acabei de baixar no kobo e já fiquei embargada em alguns trechos.

    O livro dela que me deixou do jeito que vc descreveu foi Nas tuas mãos. tá no meu top 10 da vida!

    ResponderExcluir
  3. Adorei a sua escolha de livro. Eu fiz um curso no Sesc e a professora falou muito bem dessa autora... fiquei com vontade de ler. Eu preciso colocar em dia minhas leituras dos portugueses contemporâneos!

    Beijos.
    agua-marinha.net

    ResponderExcluir
  4. Eu já tinha lido em outra resenha sobre essa falta de enredo e enxurrada de emoções. Parece que é esse mesmo o caso. Quero ver se leio em 2015.
    Bjo

    ResponderExcluir