segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O romances policiais de Flávio Carneiro



Conheci o Flávio na Uerj, quando cursava a graduação em Letras. Reencontrei-o, anos depois, no mestrado, quando cursei a disciplina de romance policial e fantástico que ele ministrava. Ao longo da minha estadia na universidade, fui adquirindo seus livros — o romance fantástico A Confissão (resenha aqui) e outros três de teoria literária. Recentemente, soube do lançamento de seu último romance policial — O Livro Roubado (2014) — e decidi comprar não só esse, mas também o anterior, lançado em 2002, intitulado O Campeonato. Eu sabia muito por alto que O Campeonato tinha uma espécie de homenagem à literatura, o que já me deixava animada. Encorajava-me, ainda, o fato de eu ter apreciado bastante A Confissão.

Tanto O Campeonato quanto O Livro Roubado se passam no Rio de Janeiro. Neles a cidade é, mais que cenário, uma homenageada. Sua geografia exuberante, seus bares e suas livrarias são percorridos, admirados e desfrutados pelos protagonistas. No entanto, a grande estrela dos dois romances é a própria literatura. É ela que será laureada, evocada e comentada a todo o momento, tanto nas investigações empreendidas quanto nas intrigas arquitetadas. 

Em O Campeonato, o sequestro de um adolescente está relacionado a um grupo secreto que promove uma bizarra competição, inspirada num conto do Rubem Fonseca. N'O Livro Roubado, uma edição de Histoires Extraordinaires, de Edgar Alan Poe, traduzida e organizada por Charles Baudelaire, é roubada da refinada biblioteca de um membro de um clube secreto de bibliófilos que se identificam com nomes de alquimistas famosos. Em ambos os romances, autores e obras literárias são citados e referenciados, de forma direta ou velada. Se no primeiro romance, a homenagem se concentra no romance policial clássico, no mais recente o louvor parece direcionado a autores de uma vertente mais notadamente erudita: Jorge Luis Borges e Umberto Eco.

André e Gordo, os protagonistas que tentam bancar os detetives, são leitores vorazes de romances policiais. André, que no primeiro romance vivia sendo mandado embora dos empregos por ler em serviço, decide fazer um curso de detetive particular por correspondência e anuncia seus serviços nos classificados usando uma citação de Poe. Gordo — um personagem tão carismático e divertido que eu gostaria de ser sua amiga na vida real — trabalhava numa livraria no primeiro romance, mas no segundo é dono de um sebo. Ambos passam a investigação tentando imaginar o que os detetives de seus adorados romances fariam, e toda hipótese levantada nas investigações é analisada com base em suas leituras de textos policiais.

Tal conhecimento, não entanto, não lhes garante sucesso. Uma das características desses dois romances é a desconstrução dos elementos clássicos do gênero. Por isso, Gordo, o suposto ajudante, é mais esperto que André, e os detetives ocupam, também, em certa medida, o lugar das vítimas. Mais transgressor é o final aberto de O Campeonato, que deixa o leitor à deriva.

Pode-se dizer que os romances, além de entreter, instruem sobre literatura. Mas toda essa informação não vem revestida de academicismos. Ao contrário, o leitor é convidado a participar e aprender como se estivesse batendo papo no bar entre amigos. Nesse sentido, a linguagem adotada tem grande contribuição: é fluida, leve, sem excessos. Os diálogos são verossímeis, inclusive no que toca à idade dos personagens, que no segundo romance estão oito anos mais velhos.

Além de envolventes e divertidos, os romances policiais de Flávio Carneiro prestam uma bela homenagem. Presenteiam os amantes de literatura e do gênero policial e provocam o leitor genérico, incitando-o a se aventurar nesse universo.

Um comentário:

  1. Adoro quando você escreve as resenhas dos livros deixa tudo mais colorido.Viva a literatura!!!

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