quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A Redoma de Vidro



Mais de dez anos se passaram até que eu me reencontrasse com a prosa de Sylvia Plath. O impacto que o único romance da autora estadunidense me causou resistiu mais na minha memória que a lembrança mesmo do texto. Por isso, decidi que era hora de retomá-lo. Fi-lo no início do ano, não sem receio de que ele perdesse a força com essa releitura mais madura. Sou grande admiradora de releituras, vendo nelas a chance de perceber aspectos antes ignorados, mas não é incomum perceber que certos textos fazem mais sentido quando somos jovens.

Aqui, a narrativa em primeira pessoa de uma estudante universitária às voltas com uma grave crise existencial, assombrava-me com a possibilidade de um texto excessivo em melodrama. Felizmente, isso não aconteceu. Reeditado recentemente pelo selo Biblioteca Azul, o texto de Plath nos é apresentado com a tradução competente e cuidadosa de Chico Mattoso, que logrou em resguardar-lhe as melhores características.

Publicado originalmente em 1963, A Redoma de Vidro tem cunho fortemente autobiográfico. O livro é narrado por Esther Greenwood, uma estudante aplicada e competente, que inicia um quadro de depressão durante um estágio numa revista feminina, em Nova Iorque. Esther, que já havia se desiludido com o estágio, sucumbe ao ter a inscrição recusada num importante curso de escrita criativa.  Plath foi uma das mais célebres poetas da vertente confessional iniciada por Robert Lowell na década de 1950, e isso é notável em seu romance, não só pelo aproveitamento das próprias experiências, mas também pelo lirismo empregado na narrativa. Esther nos apresenta o seu vazio, sua falta de energia e suas frustrações de forma gradual, através de uma prosa seca, direta, mas ao mesmo tempo poética, que ecoa o estilo de The Collossus e Ariel, livros de poemas da autora. É preciso o uso que a autora faz das pausas e da concisão sintagmática com o objetivo de conferir aos fatos uma gravidade visceral e desconcertante e de indiciar a paralisia psíquica da personagem:

Engatinhei de volta à cama e cobri minha cabeça com os lençóis. Como isso não afastou a luz, enterrei o rosto sob a escuridão do travesseiro, fingindo que ainda era noite. Eu não via motivo para me levantar.
Eu não ansiava por nada. — p. 133.

Esther narra suas experiências com objetividade brutal, como se as olhasse de fora, aumentando a angústia e a vulnerabilidade do leitor, que nunca é preparado para o que vem adiante. Essa secura narrativa é pontuada por momentos poéticos, cuja força se ancora na beleza imagética:

Resolvi nadar até estar cansada demais para voltar. Enquanto avançava, eu sentia o coração batendo como um motor surdo nos meus ouvidos.
Eu sou eu sou eu sou. — p. 177.

— Vamos continuar de onde paramos, Esther — ela havia dito, com seu sorriso doce de mártir. — Vamos fingir que tudo não passou de um sonho ruim.
Um sonho ruim.
Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim.
Um sonho ruim.
Eu lembrava de tudo.
(...)
Talvez o esquecimento, como uma nevasca suave, pudesse entorpecer e esconder aquilo tudo.
Mas aquilo tudo era parte de mim. Era a minha paisagem. — 266

O suicídio se apresenta à personagem como uma espécie de libertação, nunca associado ao desespero. Os momentos em que Esther pensa nele ou dele se aproxima são calmos, quase delicados, como se ela vislumbrasse nele uma espécie de refrigério para uma existência cansativa e decepcionante.

Plath maneja com maestria a abordagem da depressão, a percepção repentina da falta de controle sobre os próprios sentimentos. É sabido que a autora sofreu com a doença e se submeteu a tratamentos similares aos experimentados pela personagem, além de ter tirado a própria vida no mesmo ano da publicação do romance. No entanto, nunca saberemos o que no romance é  autobiográfico ou ficcional. A questão é que Plath consegue transmitir, em A redoma, a desorientação do indivíduo diante de uma doença que lhe suga progressivamente as energias.

O escrutínio de nossa fragilidade, com uma prosa a um só tempo madura, poética e inclemente faz de A Redoma de Vidro um romance verdadeiro, ainda que pesado, e revela não só o olhar sensível de Plath, mas também o seu domínio pleno do ofício na transposição de temas tão humanos em ficção.

6 comentários:

  1. Esse novo layout é verdadeiramente lindo. Penso ler algo da Sylvia Plath esse ano, na verdade, eu não penso eu necessito ler. Ouço tantos comentários positivos a essa autora que vejo mais do que obrigação minha ler os livros dela para a minha ''formação-como-leitor''. rs

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    1. Recomendo muito, não só o romance, como os poemas.
      Obrigada pelo elogio!
      Fui no seu blog e achei-o lindo também!
      Visitarei mais para checar as resenhas!
      ;)

      Beijo grande!

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  2. Olá! Meu TCC será sobre a Redoma de Vidro, e estou encantada com a sensibilidade de Plath também. Aparece no meu blog http://senhoritaretro.blogspot.com.br/
    beijo!

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    1. Adoraria ler seu trabalho!
      E amei o banner do seu blog!

      Beijinhos!

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