quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Cantares, Hilda Hilst



Cantares do sem nome e de partidas

III

Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.

V

O Nunca Mais não é verdade.
Há ilusões e assomos, há repentes
De perdurar a Duração.
O Nunca Mais é só meia verdade:
Como se visses a ave entre a folhagem
E ao mesmo tempo não.
(E antevisses
Contentamento e morte na paisagem).

O Nunca Mais é de planícies e fendas.
É de abismos e arroios.
É de perpetuidade no que pensas efêmero
E breve e pequenino
No que sentes eterno.

Nem é corvo ou poema o Nunca Mais.

VII

Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viam subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo veem aquela.

Cantares de perda e predileção

XIV

Como se desenhados
Tu
E o dentro de casa.
Entro
Como se entrasse
No papel adentro

E sem ser vista
Rasgo
Alguns véus e fibras

Sem ser amada
Pertenço.

Que sobreviva
O fino traço de tua presença.
Aroma. Altura.
E lacerada eu mesma

Que jamais se perceba
Umas gotas de sangue na gravura.


Hilda Hilst nasceu em Jaú (SP), em 1930. Radicada no município de Campinas desde 1965, vivia na Chácara do Sol. Formada em Direito pela USP, desde 1954 dedicou-se integralmente à criação literária. É reconhecida hoje como um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Faleceu em 2004.

Um comentário:

  1. Bom, sou mega suspeita pra comentar sobre a Hilda, porque né ? Meu grupo de teatro tem duas montagens com texto dela, uma que inclusive tem trechos desse livro, você vai gostar de ver um dia: http://grupomatulateatro.com/project/passagens/
    Quando você vir à Campinas, preciso te levar lá na Casa do Sol <3
    Beijão
    Anna

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