quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O bom e velho rock'n'roll de Tom Petty & The Heartbreakers


Por alguma razão desconhecida, os críticos resolveram olhar para o Tom Petty ano passado. Seu último álbum, Hypnotic Eye, foi eleito em diversos sites e periódicos especializados um dos melhores lançamentos de 2014. Como se o Tom Petty não estivesse fazendo esse tipo de música desde sempre. A banda, formada em 1976 na Flórida, segue produzindo seu heartland rock, gênero que mistura rock, blues e folk e que também foi popularizado por Bruce Springsteen e Bob Seger.

Essa boa recepção pode ser facilmente atribuída à consistência do disco, que soa como o bom e velho rock clássico, mas traz uma sucessão muito acertada de canções. Não há altos e baixos nesse disco! Faixa a faixa, tudo é simplesmente muito bom.

Hypnotic Eye é um disco delicioso, com riffs e solos excelentes, e com uma vitalidade juvenil nas letras, apesar dos 64 anos do líder e compositor da banda. O carro-chefe do disco, "American Dream Plan B", é quase ingênua em seu otimismo e faz um contraste muito bem-vindo com a atitude cínico-mimizenta predominante na música alternativa contemporânea. Essa faixa abre o disco com um riff poderoso e um refrão contagiante.





"Full Grown Boy", com seu ritmo calmo, jazzístico e um tanto sacana, faz uma associação entre sensualidade felina e hesitação inexperiente, que me levou direto para os meus dezessete anos:

"I like to creep up sure and easy
Like a cat moves through the grass
And the full moon seems to know me
Cause I found myself at last"

"How am I gonna tell her that I love her?
When this might not be the day"?"
 Em "All you can carry",  ainda que o eu lírico se confronte com sentimentos mais obscuros, sua atitude é esperançosa e motivada:

"I saw the flames coming across the bridge
Falling ashes in the wind
You and I are on that bridge
And now we got to save our souls again

Take what you can
All you can carry
Take what you can
And leave the past behind"

"Forgotten Man", apesar de tratar um homem deprimido e frustrado, é, sonoramente,  uma das mais enérgicas.

A banda encerra com a sutil "Shadow People", que enxerga a alma humana com clareza e argúcia, mas também com certa piedade:

"And this one carries a gun for the USA
He's a 20'th century man
And he's scary as hell
Cause when he's afraid
He'll destroy anything
He doesn't understand"

Nessa última faixa, o baixo, os riffs e solos de guitarra e de órgão são articulados de forma precisa.

As músicas abordam almas perdidas em busca de realização, a vontade de viver, a loucura da cidade que não pára. Há sempre o movimento, seja ele urbano, seja ele a jornada de pessoas tentando se encontrar. Essa vitalidade dos temas está também muito bem traduzida na sonoridade das músicas, que exalam uma animação tranquila. É interessante que ao frescor otimista das letras se contraponha o entusiasmo maduro dos arranjos, que empolgam, excitam, mas nunca transbordam, nunca perdem o controle.

Se Tom Petty and The Heartbreakers se mantém num lugar seguro e não chegam a inovar, com Hypnotic Eye eles mostraram  que conservar-se em seu elemento não significa perder o viço.


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Ouça o álbum aqui.

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