quinta-feira, 26 de março de 2015

Hildegarda: uma "feminista" na era medieval



Em tempos de vasta discussão sobre o feminismo, uma figura histórica que me causa um certo fascínio é a monja alemã Hildegarda de Bingen. Hildegarda nasceu em 1098 e foi, além de monja beneditina, mística, teóloga, compositora, pregadora, naturalista, médica, poetisa, dramaturga... Ufa! Algo como um Da Vinci medieval de saias.

A gente não costuma pensar na era medieval como o período histórico mais generoso para as mulheres. Nessa época, a opinião das mulheres não era consultada ou sequer considerada. Por isso  mesmo, fico maravilhada com todos os prodígios intelectuais que ela conseguiu realizar. Na europa do século XII, toda e qualquer atividade intelectual estava ligada à igreja, e, tendo ingressado ainda criança no mosteiro de São Disibodo (ela teria sido doada em dízimo pela família), Hildegarda se aproveitava do claustro para estudar e produzir. Muitos de seus escritos eram ilustrados por ela própria. 



Hildegarda tinha visões e escrevia textos muito avançados para o seu tempo, inspirados nessas experiências (lembrou-me de William Blake). Escreveu, também, tratados sobre ciência natural e obras teológicas. Impressionado com seus textos religiosos, o Papa Eugenius III permitiu que a monja pregasse em público, e Hildegarda, de posse desse concessão, não hesitou em criticar o governo e denunciar os privilégios do clero. No monastério de Bingen, onde Hildegarda era mestra, as monjas eram autorizadas a louvar dançando, cantando e encenando peças.

Sua música:







Hildegarda foi canonizada e declarada Doutora da Igreja em 2012, pelo Papa Bento XVI.

Neste link, é possível ver o filme alemão Visão - De Hildegarda de Bingen de 2009, legendado em português. O longa é dirigido por Margarethe von Trotta, e o papel principal ficou a cargo de Barbara Sukowa, que o desempenha com muita força.  Uma curiosidade: a diretora, que já havia trabalhado com Sukowa em 1985 num filme sobre Rosa Luxemburgo, repetiu essa parceria em 2013, com Hannah Harendt.


Visão - De Hildegarda de Bingen é um ótimo filme e destaca algumas posturas da monja que muito me impressionam: a consciência ecológica (que vinculava a relação ideal com Deus a uma convivência harmônica com a natureza), a crítica ao autoflagelo e a impetuosidade ao desafiar padres corruptos e ao defender suas pupilas. O longa também tenta humanizar a religiosa, ressaltando suas fraquezas. 

O "feminista" do título está entre aspas porque, no século XII, a trajetória de Hildegarda era clara exceção (o que só ressalta os seus talentos) e sua missão não estava exatamente ligada à discussão sobre a condição feminina. Ela acabou, no entanto, se destacando ao obter reconhecimento e respeito por seu trabalho excepcional, numa época em que as mulheres tinham espaço e oportunidades mínimas*. Suas músicas, suas gravuras e seus textos, além do filme de von Trotta, dão-nos testemunho de como Hildegarda era brilhante, autêntica e muito à frente de seu tempo.

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* Parece-me que Georges Duby, em sua trilogia dedicada às mulheres medievais, relativiza um pouco essa questão da pouca influência da figura feminina nesse período histórico. É um estudo que tenho muita vontade de fazer.

3 comentários:

  1. Sensacional, Aline! Adorei conhecer a Hildegarda. Nunca tinha ouvido falar dela, como você a encontrou? É realmente um achado. PRECISO assistir esse filme :)

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    1. Ouvi sobre ela pela primeira vez quando fiz um curso de História da Música Ocidental. Fui pesquisar e fiquei maravilhada com a sua biografia!
      :)

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  2. Adorei o post, impressiona mesmo a história dela, agora queria saber se tem alguma biografia para ler. bj

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