quinta-feira, 5 de março de 2015

Mrs. Dalloway



Absorvente, misteriosa. De uma infinita riqueza, aquela vida. — Pg. 165

Minha experiência com a ficção mais transgressora da autora inglesa Virginia Woolf nunca foi muito fácil. Nas primeiras vezes em que li os romances Mrs. Dalloway e As Ondas, acabei sendo vencida pela ousadia estilística que os caracteriza e que demanda certo esforço de concentração. Abandonei ambos, mas mantive a ideia de retomá-los posteriormente, com mais tranquilidade e empenho. No início desse ano, decidi incluir o mais famoso dos dois na lista com as cinco releituras que planejo fazer.

Publicado em 1925, Mrs. Dalloway é o quarto romance da escritora e narra um dia na vida de Clarissa Dalloway. A história tem início com a protagonista saindo para comprar flores para a festa que realizará à noite. O narrador onisciente acompanha a personagem, seus atos e pensamentos, até que se desvia para os demais passantes com quem Clarissa vai esbarrando no caminho.

A técnica narrativa utilizada pela escritora é a do discurso indireto livre, com o qual o narrador se imiscui nos pensamentos e sensações dos personagens, quase se confundindo com eles. Woolf celebrizou-se pela larga exploração do fluxo de consciência, recurso que se detém na torrente de pensamentos dos personagens e em seus conflitos internos, mais que nos acontecimentos exteriores. Por esse motivo, a maior parte dos fatos descritos é banal.

Associada a esses recursos, há a abordagem cinematográfica das cenas, que se utiliza de flashbacks e flashfowards, do corte, da descrição de longas cenas (algo como um plano-sequência), da descrição de acontecimentos simultâneos e do close-up. No início da década de 1920, o cinema já havia nos brindado com O Gabinete do Doutor Caligari (1920), de Robert Wiene, com O Garoto (1921), de Chaplin e com Nosferatu (1922), de Murnau. O clássico russo Encouraçado Potemkim, de Sergei Eisenstein é do mesmo ano da publicação do romance. Além de afirmar que Virginia Woolf pertence a uma tradição modernista que repensa, revisa e transgride as características clássicas do romance, pode-se, ainda, situá-la no rol de artistas capazes de identificar a grande influência dos novos instrumentos ópticos na percepção humana do mundo. Se em 1857, Gustave Flaubert se antecipava, de forma impressionante, ao corte cinematográfico, ao intercalar cenas simultâneas em Madame Bovary, na década de 1920, a percepção da realidade pelo homem já estava francamente afetada pela velocidade dos transportes, pela câmera fotográfica e pelo cinema. E Virginia parece ter observado esse fenômeno com perspicácia.

Por isso, o narrador de Mrs. Dalloway não só intercala o foco, indo de um personagem a outro de forma abrupta (o que, em certa medida, pode dificultar a leitura), como se aproxima gradativamente de cada um deles, aprofundando-se em seus atos e, então, em seus pensamentos, num detido e interessado close-up.

Outra característica que Virginia parece ter herdado de Flaubert é a abordagem lírica e imagética dos sentimentos dos personagens:

Suspirava, ressonava, não porque estivesse adormecida, mas sonolenta e pesada, sonolenta e pesada; como um campo de trevo ao sol, naquele ardente dia de junho, com com abelhas e borboletas amarelas a lhe voejarem por cima. — Pg. 115
O uso da imagem adquire inúmeros significados nesse romance, não só porque é largamente explorada nas descrições de ambientes e na criação de metáforas psicológicas, mas porque uma das grandes questões do romance é a oposição entre essência e aparência.

(...) este é um privilégio da solidão: pode a gente fazer o que bem nos parece. Pode-se até chorar, se ninguém está olhando. — Pg. 153

Clarissa Dalloway é uma personagem que escolheu controlar seus ímpetos espontâneos em nome de uma existência mais segura, e boa parte de seus pensamentos se concentra no conflito decorrente dessa escolha — que precisa ser reafirmada sempre, a cada dia. Nesse sentido, os demais personagens do romance — o namorado da adolescência, Peter Walsh, a amiga e ex affair Sally e o veterano de guerra Septimus — atuam no romance como espelhos e lembretes dos aspectos que Clarissa escolheu podar: a espontaneidade, a profundidade, o absurdo.

Casada com um homem importante e na meia idade, Clarissa não chega a ser uma pessoa deprimida. Ela ama a vida, quer celebrá-la, mas teme os perigos da medida ultrapassada. Ela censura seus antigos amigos, aferra-se a uma ilusão de controle, mas também não quer ser triste como a solitária anciã da casa em frente.

A relação e a oposição entre Clarissa e Sally permitem que Woolf discuta a condição feminina no início do século XX. Adotando posturas opostas, ambas acabam estigmatizadas  — uma por excesso de frieza e alienação, e a outra por descompostura. Esse contraste deixa entrever não só a futilidade da sociedade inglesa moderna, mas também a resistência dessa sociedade em tomar as atitudes femininas como válidas.

Outro ponto interessante do romance é a discussão acerca da psicanálise, através do trauma de guerra sofrido por Septimus. Woolf põe em evidência a precariedade dos tratamentos a que o personagem se submete, o que é curioso se lembrarmos que a sua editora, Hogarth Press, foi pioneira na publicação das obras de Freud em inglês. Não é difícil suspeitar o grande interesse da autora por essa matéria, visto que ela própria acabou sofrendo graves transtornos psicológicos.

Uma questão incômoda reside no fato de que, apesar de penetrar tão fundo na alma dos personagens, o romance  se mantém distante, sustentando um olhar clínico que enfraquece a possibilidade de empatia. Apesar disso, Mrs. Dalloway é um livro compromissado: analisa com seriedade questões sociais e psicológicas, encena um novo modo de percepção do mundo e executa, de forma muito competente, um projeto original de alargamento das possibilidades do gênero.

5 comentários:

  1. Muito legal a resenha, Aline! Como você eu também achei o livro um tanto frio de uma maneira geral, mas gostei muito dos personagens Clarissa e Peter. Que bom que sua releitura foi positiva, nada pior que ler um livro que não se gosta duas vezes! Beijos! =)

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    1. Ah, sim. Seria frustrante!
      E também gostei muito da sua resenha!
      :)

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  2. Tentei ler Madame Bovary em 2013 mas a leitura não continuou e com muito esforço consegui chegar apenas na primeira parte do livro. A citação na sua resenha de Flaubert fez-me agora interessar em regressar a leitura de Bovary e na leitura de Mrs.Dalloway, cuja escritora já vi sendo citada algumas vezes na série Gilmore Girls. Sua resenha se assemelha a de um doutorado, meus parabéns Aline :).

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    1. Ah, que comentário lindo!
      Obrigada!
      :)
      Madame Bovary é um dos meus romances favoritos! Recomendo muito! E acho que Mrs. Dalloway vale o esforço.


      Beijo!

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  3. Engraçado ,pois isto ocorreu-me com Ulisses de James Joyce ,entretanto no caso de Virgínia,Mrs Dalloway pegou me de imediato.Sua estrutura narrativa complexa ,com várias vozes,várias perspectivas cativou me.Há um certo distanciamento pois o leitor se envolve particularmente com a narrativa em detrimento aos personagens.Mas Virgínia é sempre estupenda!

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