terça-feira, 31 de março de 2015

Trinta e Oito e Meio



Publicado no início de 2015 pela editora Língua Geral, Trinta e Oito e Meio é o primeiro livro da atriz e diretora de cinema Maria Ribeiro. Com um projeto gráfico caprichado e belíssimas ilustrações de Rita Wainer, o livro reúne algumas crônicas que autora publicou na revista TPM, além de outras inéditas.

As crônicas de Maria versam sobre amor, família, amigos, trabalho, laços afetivos, comportamento. E aqui "versar" pode se referir também ao lirismo e à originalidade com que a autora maneja seus elementos. Maria se debruça sobre os fatos  com interesse e espanto, dando atenção às minúcias, às entrelinhas. Investigando o significado das coisas, das reações e das relações interpessoais ao seu redor.

Esse olhar curioso e fascinado é veiculado por um estilo a um só tempo poético, original e bem humorado. Maria, a exemplo de grandes cronistas, como Rubem Braga, vê a beleza e a grandiosidade das pequenas coisas:


Eu entendi o futebol, pai. Ele é bonito porque é lúdico e primitivo, e nos dá a todos um sentido instantâneo pra existência, um prazer que mistura fazer parte e descansar de que se é. Porque perdendo ou ganhando não há solidão, e saber que alguém sente o mesmo que você é quase tudo na vida. Quem tem time tem tudo. — Pg. 158



A autora elabora frases de efeito inusitadas, além de exercer uma autocrítica divertida e sincera:

Porque se a tragédia da vida é o 'take' único, os filhos são uma verdadeira máquina do tempo — sem o custo do efeito especial. — Pg. 35

 A supraeu frequentaria mostras, reveria todos os Bergmans e, o que é melhor, compreenderia todos os Bergmans, e daria aquelas risadas pra si de quem faz parte do restrito mundo da inteligência. — Pg. 109

A ironia autodirigida associada ao desvelo de suas inseguranças, dúvidas e incertezas nos aproxima da autora, cria empatia porque permite que nos reconheçamos naqueles dilemas, permite que iniciemos uma reflexão acerca de nós mesmos a partir das que ela empreende.

Maria Ribeiro retorna, quase obsessivamente às memórias: é uma saudosista melancólica que, no entanto, não repudia o presente. As lembranças são resgatadas a todo tempo porque a fortalecem e suavizam, porque permitem que ela possa aceitar as próprias fraquezas, reconciliar-se com as próprias falhas, preencher de significado as próprias lacunas e conferir sentido (mas também leveza) às atividades cotidianas.

As pessoas são de extrema importância na jornada de Maria e várias de suas crônicas se constituem de agradecimentos, de reconhecimentos, de admiração. A autora lhes declara seu amor e celebra  as dádivas decorrentes desses laços.

Porque você, Carol... você é uma casa com estrutura de ferro e passarinho nas árvores. Um lugar do qual eu nunca quero sair, onde eu moro feliz, e de onde humildemente te ofereço meu ombro e minha sincera amizade. — Pg. 55

Trinta e Oito e Meio é, ainda, um registro de formação, já que a cronista reflete sobre seu amadurecimento, sobre seu aprendizado, examina seus papéis: filha, mãe, amiga. Todos lhe cabem e todos estão em processo. E se complementam, no incessante exercício de tentar viver bem.

5 comentários:

  1. Linda resenha!! Gosto da Maria Ribeiro como atriz e não sabia que era também escritora. Parabéns pela resenha!!

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  2. Aline, esqueci de perguntar no meu comentário se o diário e a caneta vieram junto com o livro?

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  3. Aline, eu gosto muito da Maria. Adoro o Saia Justa e acho a energia dela inspiradora. Mas não conhecia as crônicas...legal sabe que mexeram com vc. E o livro ficou um arraso mesmo <3
    Bj grande

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