segunda-feira, 27 de abril de 2015

Roman Holiday



Há um punhado de lugares do mundo que sonho em conhecer e, nesse meu último período de férias,  pude aportar em um deles: a Itália. Mais especificamente Roma e Florença, graças a uma promoção da Black Friday. (Duas coisas que farei sempre daqui pra frente: checar passagens da Black Friday e criar alertas no aplicativo do Voopter).

Parcelamos as passagens, reservamos um hotelzinho no Centro e começamos a planejar e comprar as entradas de alguns dos museus mais importantes do mundo. Nossa fissura com a Itália se deve à riqueza histórica e artística do país. Roma é um museu a céu aberto, exala história. E mesmo sem entrar em nenhum prédio histórico ou igreja, somos impregnados de cultura. A gente se sente mais inteligente só de andar por aquelas ruas.


Em Roma, funciona assim: você pega uma ruazinha do Centro - uma rua sem luxo, mas com construções antigas e meio detonadas que fazem você se sentir dentro de um filme do De Sica - e vai atrás de uma cantina tradicional, um lugar que os romanos frequentam. De repente, enquanto você lê os letreiros, surge um pedaço do Coliseu no fim da rua. Assim, do nada.



Ou então, depois de explorar ruelas minúsculas, com chão de pedra e fileiras de lambretas, você dá com o Panteão enfiado numa pequena praça e rodeado por centenas de pessoas. Porque Roma é lotada de gente. Toda piazza é repleta de pessoas, locais ou turistas, que passeiam, descansam, comem, compram, conversam (pelo menos nessa época do ano). Roma é bela, única, eterna, mas também é muito viva: seu trânsito é caótico, seus cafés, com mesinhas nas calçadas, estão sempre cheios.


Uma das melhores coisas que fizemos em Roma, foi explorá-la a pé, observando as fachadas e as pessoas. Um dia, estávamos comendo um ravioli dos deuses no Bar Brasile, bem em frente à Piazza Venezia, quando uma senhorinha entrou com sua bengala, comprou um gelato gigante, sentou, e ficou lá saboreando. De repente, ela recebeu um telefonema, sacou o celular, e ficou contando a vida entre uma lambida e outra. 



Num outro dia, depois de bater muita perna, sentamos num banquinho da Piazza Navona e ficamos ouvindo uma moça tocar acordeon. As luzes do crepúsculo estavam inacreditáveis e a praça estava borbulhando de gente. Tomada de uma alegria infantil, comecei a dançar e, sem perceber, chamei a atenção de uma senhora doida. Ela tinha o rosto todo borrado de maquiagem e se vestia de um modo pomposo com trajes puídos. Ela se aproximou e começou a relatar a sua vida, seus tempos no show business, seu desentendimento com a máfia e as agressões que sofreu. Entendíamos alguma coisa, mais pelo contexto, mas ela não se intimidou com nossas caras de tacho e nossos sorrisos surpresos. Ela tinha um modo todo teatral de falar, uma presença que nos magnetizou. Foi uma das experiências mais loucas e ao mesmo tempo doces que Roma pôde nos proporcionar.


E que falar das ruínas e igrejas? Não é só a antiguidade das construções, que resistiram a diferentes guerras e a diferentes impérios e culturas, que impressiona. Cada uma delas tem camadas e camadas de história. Templos pagãos que tornaram-se igrejas e tem elementos da antiguidade, do medievo e do renascimento. São testemunhos da história da humanidade tão maiores que a gente, que ficamos nos sentindo minúsculos, insignificantes, mas ao mesmo tempo engrandecidos pelo contato com tanta cultura.





Durante meus passeios, lembrei muito do filme A Grande Beleza. Beleza é uma palavra que combina muito com a cidade, em todas as suas acepções. Os romanos vivem a beleza. Ou, para usar uma expressão empregada por Cheryl Strayed em Wild, eles se colocam no caminho da Beleza: vestem-se com esmero, comem bem, praticam o dolce far niente com estilo, conversando, fumando, tomando cafés, vinhos e comendo crostatas, tomando sorvete, pegando sol e ouvindo música nas praças em frente às fontes, caminhando à beira do Tibre, pedalando nos parques... O hedonismo  parece um estilo de vida, que se reflete inclusive na relação com o outro, porque os romanos são gentis, simpáticos, gostam de ajudar e agradecem sempre quando você paga a conta e se despede.


Meu hotel foi um capítulo à parte. Escolhemos um que era centralizado, próximo do metrô e financeiramente acessível. Já tínhamos visto no mapa que ele ficava a quinze minutos a pé do Coliseu, a quinze minutos de carro do Vaticano, a cinco minutos do metrô e que servia um café da manhã bem simples e básico. Quando chegamos lá, descobrimos que ele era localizado num prédio do início do século XX, com aquelas portas enormes de madeira, um pátio no meio e elevador antigo de ferro.  Senti-me num filme do Rossellini ou do Scola e fiquei esperando a Anna Magnani aparecer gritando ou a Sophia Loren surgir em alguma janela de camisola e lavando pratos.


Roma é tão surreal que parece de mentira. É uma cidade muito convidativa, que te presenteia até nas pequenas coisas: um canteiro de margaridas, um Fiat 500 na calçada, lambretinhas passando a todo momento, gelaterias e floriculturas em várias esquinas...

Se Roma, com suas construções milenares, nos põe no devido lugar, mostrando-nos a efemeridade de nossas vidas, ela também nos oferece um panorama da capacidade humana — para o bem e para o mal.  Cada ruína ou peça de arte nos dá perspectiva, ajuda-nos a compreender a trajetória do homem no mundo e a escolher o nosso lugar nele. Nesse sentido, a cidade parece nos fazer um convite: "Aproveitem! Tomem a narrativa histórica que lhes dou, reflitam sobre o que é importante e, então, tirem o melhor de cada dia, porque o seu tempo é curto". Aceito o convite.

Grazie!



13 comentários:

  1. Oi Aline, tudo bem?

    Nossa que fotos e texto incríveis, arrepiei, fiquei emocionada e louca pra conhecer essa beleza de perto.
    É engraçado como as coisas grandes e bonitas nos trazem esse sentimento de pequenez, essa coisa de perto do todo, somos ínfimos, é uma lição de humildade (e que bela lição nesse caso).

    As vezes as coisas mais inusitadas, são as mais marcantes, imagino sua alegria dançando e a louquinha vindo conversar com você, deve ter sido coisa de filme!

    Que existam mais viagens assim, porque delas surgem coisas lindas como esse texto!

    :*

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  2. Oi,Aline! Que texto lindo! Vai ter segunda parte,né? Afinal, teve Florença também... Gostei muito da dica da black friday... Manda mais coisas bonitas. Precisando sonhar. Um abração.

    Alexsandra Menezes

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    1. Estou planejando outros posts, sim.
      Que bom que gostou!
      :)

      Beijo!

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  3. E esse já entrou pro ranking dos posts mais bonitos da casinha da Line: sim ou com certeza?
    Muito bom viajar com você! Nas fotos do instagram dava pra sentir a sua empolgação e seu deslumbramento, o que é sempre lindo!!! Fotos maravilhosas <3
    Gostei muito da # que você usou, A grande beleza! Quando vi, lembrei do filme e pensei que só os italianos conseguiriam fazer um filme como aquele porque só eles sabem como é viver essa maravilha!
    (agora bateu o ataque de ansiedade e já quero o post de Florença!!)
    Beijos!!!

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    1. Amiga, você sabe da minha piração desde o início!
      <3
      Planejo fazer um post sobre Florença, sim.
      Vamos ver se consigo.
      Beijo!!!

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  4. Que post incrível, Aline! ^_^
    Acompanhei sua viagem toda pelo Instagram e curti cada momento com você. Conheço Roma, mas como só passei três dias lá, não tive tempo de fazer tudo o que você fez.
    Um beijo!
    P.S. Roman Holiday é um dos meus filmes favoritos <3

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    1. Seu eu pudesse, ficava até mais!
      Beijo, querida!

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  5. Patrícia Carla Chagasterça-feira, abril 28, 2015

    Aline,

    Quero te parabenizar pelo texto tão sensível e bom que compartilhou conosco.
    Você nos apresenta uma bela Roma, sobretudo pela beleza do seu olhar.
    Estou num dilema agora, pois, já queria conhecer Roma e estou planejando minhas férias agora e me apaixonei mais ainda quando vi sua descrição.
    Seu texto tem que ir para alguma revista, não só de turismo, é um texto poético, literário!
    A grande beleza é um dos meus filmes prediletos e fui percorrendo seu relato emocionada, como fiquei ao ver o filme.
    Parabéns e obrigada por nos mostrar tanta delicadeza!
    Um abraço,
    Patrícia (de Natal/RN)

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    1. Que comentário lindo, Patrícia! Pôs-me um sorriso no rosto!
      :)
      Muito obrigada!!!
      Beijo grande!!!

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  6. Oi Aline, é a primeira vez que comento e me deu vontade porque achei sua interpretaçao de Roma muito genuina. Moro na Italia e acompanhei de perto as criticas e debates sobre o filme A grande Beleza, que é sim um filme muito bonito mas o titulo é na verdade muito ironico. Assim como o La dolce vita esse filme tenta retratar um degrado da sociedade romana, superficial e que nao esta muito atenta ao que seria na realidade "A grande beleza". Seu jeito de olhar pra cidade demonstra que apesar de tudo, a grande beleza é visivel e pulsante e nào hà degrado nenhum que poderà cancelar a magia dessa cidade que é mesmo eterna.
    Um abraço, Lilian

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    1. Olá, Lilian!
      Adorei seu comentário!
      Os dois filmes que você citou são ótimos e bastante críticos, de fato.
      E, apesar de tudo, a beleza é pulsante e visível, como você disse.
      Inclusive, achei o povo romano bem parecido com o brasileiro em relação ao carisma e ao prazer de viver, a despeito dos problemas sociais e políticos.
      :)
      Beijo!

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  7. Que incrível Aline! É essa sensação que a viagem nos proporciona, o de mais e mais conhecimento. E a Itália é um desses lugares que parece uma aula de história! Um dos lugares que mais eu gostei por lá, foi o Panteão, eu achei gigantesco, adentrar a piazza e dar de cara com aquilo é mágico! Não fui a Florença, mas já deu uma vontade imensa de ir só pelo seu relato!

    As fotos ficaram lindas e é claro eu babava a cada postagem no Instagram! Estou esperando a sua visitinha aqui pelos lados da Inglaterra, assim poderemos ir até a cidade de Shakespeare e bater perna pelo interior! E que sorte visitar Roma com esse tempo fresquinho e aproveitar cada parada, café ou sorvete! Ainda quero voltar na primavera, nunca no verão, hehehe! <3

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