quinta-feira, 30 de abril de 2015

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres



Às vezes esqueço por que fico tanto tempo sem ler um livro da Clarice. Daí, quando finalizo a leitura de um deles, lembro-me a razão. O texto de Clarice me proporciona reflexões insólitas que rendem, que ficam ecoando por muito tempo. Sinto como se Clarice me suspendesse do banal.

Clarice e eu temos história. Já contei aqui como seus contos ajudaram a me fisgar de vez para a literatura. Só que nem tudo são flores. Houve romances da autora que podiam ser virados de ponta-cabeça que eu não saberia a diferença. Livros onde não fui capaz de penetrar. Textos que me venceram no duelo e que acabei abandonando por excesso de desorientação.

É lamentável que seus textos tenham sido retalhados e transformados em memes vazios que pouco se aproximam da complexidade que os caracteriza. Clarice foi uma autora profunda, hermética, livre e ousada, bem distante da autoajuda barata em que tentam transformá-la.

Publicado em 1969, o sexto romance da autora — Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres — é de um arrojo criativo tal que atrevo-me a defini-lo como um longo poema. Embora o romance descreva, em certa medida, o desenvolvimento da relação de um casal, é na investigação dos estados psíquicos desses personagens que ele se detém. 

Loreley é uma jovem professora primária que tem muita dificuldade de viver, de ser ela própria plenamente e sem sofrimento. É como se ela fosse incompatível com a realidade que a cerca. Suas experiências são pautadas na dor, e ela acaba se retraindo numa postura antissocial diante do mundo.  Ulisses, um professor de filosofia, interessa-se por ela e busca oferecer orientações sutis que a auxiliem a ficar mais à vontade na própria pele, que a auxiliem a experimentar a vida também através da alegria. Suas sugestões são sutis porque deve ser Lóri a agente nesse desafio. Quanto mais solitária e autônoma for a sua superação, mais efetiva ela resultará.

É preciso esclarecer que a tentativa de sinopse acima diminui bastante o texto, um risco que ele mesmo aponta: 

"Não entender" era tão vasto que ultrapassava qualquer entender — entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. —Pg. 43

Uma Aprendizagem ou O Livros dos Prazeres traz uma abordagem poética da alma humana, através de um experimento literário que força as barreiras do gênero e dos significados. Iniciado com uma vírgula e encerrado com dois pontos, o romance indica o caráter processual da história narrada: uma aprendizagem já iniciada e que não se encerra com o fim do romance. O texto traz, ainda, um capítulo composto por uma única palavra e o emprego acentuado de prosa poética que, em alguns momentos, dificulta interpretações meramente racionais, mas que sobressai por sua força imagética:

A batata nasce dentro da terra. 
E isso era uma alegria que ela aprendeu na hora: a batata nasce dentro da terra. E dentro da batata, se a pele é tirada, ela é mais branca do que uma maçã descascada.
A batata era a comida por excelência. Isso ela ficou sabendo, e era de uma leve aleluia. — Pg. 123

Tomava o café e pensava sem palavras: meu Deus, e dizer que é noite plena e que eu estou plena da noite grossa que escorre com perfume de amêndoas doces. E pensar que o mundo todo está grosso de tanto cheiro de amêndoas, e que eu vos amo, Deus, com um amor feito de escuridão e clarões. E pensar que os filhos do mundo crescem e se tornam homens e mulheres, e que a noite será plena e grossa para eles também, enquanto eu estarei morta, plena também. Eu vos amo, Deus, sem esperar senão a dor de Vós. A dor é o mistério. — Pg. 108

Loreley — cujo nome evoca o mito alemão da sereia que seduzia marinheiros e os conduzia à morte — está associada à desmedida, ao descontrole. Seu caráter é dionisíaco, conforme o conceito estético postulado por Nietzsche, já que suas sensações e sentimentos irrompem até o desespero, e seu processo de aprendizagem envolve rituais que orbitam o mistério, o ilógico, o selvagem.

Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem — pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela — apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. — Pg. 28
Lóri se sentia como se fosse um tigre perigoso com uma flecha cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. — Pg. 121

Os ímpetos da protagonistas também são descritos através das imagens do fogo e da água. O fogo que consome e destrói, como a metáfora da dor existencial, e a água — impetuosa, geradora e transformadora — como alegoria dos anseios de Lóri em se superar, em renascer — não adequada, mas à vontade no universo em que vive.

Ulisses, em contrapartida, é a face apolínea do casal: centrado, controlado, capaz de mover-se bem no mundo, de experimentar a satisfação de forma comedida. Seu nome evoca o ardiloso guerreiro grego — forte, fiel e perspicaz —, que no romance, ironicamente, é quem espera que Lóri esteja emocionalmente pronta para se relacionar com ele. Sua aprendizagem está mais avançada, e a sabedoria que partilha com Lóri demonstra a possibilidade de uma postura mais positiva diante da vida:

(...) uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. — Pg. 26

Loreley inicia uma jornada de autoconsciência e de auto desafio a fim de superar as próprias dificuldades. O entendimento sobre si mesma, processo doloroso e angustiante, tem início no contato com o outro, na percepção que o outro (Ulisses) tem dela, para só então retornar e partir da própria perspectiva.  Clarice enfatiza também a relação do indivíduo com o ambiente, o processo de familiarização e conhecimento do mundo através de pequenos insights e epifanias indizíveis, de experiências que se concretizam num âmbito pré-verbal, no "pensar sem palavras".

Nota-se, em Uma Aprendizagem, o emprego de elementos recorrentes na obra clariceana, como o misticismo, o uso do vocabulário litúrgico e a presença da epifania decorrente do ato de comer (comunhão). Uma questão curiosa reside no fato de a autora transitar entre a sugestão de um milagre da existência e uma concepção espinozista de Deus, isto é, da noção de um deus-natureza, que é tudo. Se a obra não opta por uma dessas vertentes, isso não chega a gerar inconsistência, dado o caráter processual do aprendizado, já citado anteriormente.

Pode-se dizer que Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres  é um dos momentos mais maduros e conscientes da carreira de Clarice, em que uma poética ontológica se desenvolve através de um estilo narrativo livre e autêntico, que busca tangenciar com a forma a questão da essência e da liberdade individual.

3 comentários:

  1. Aline!!! Que texto maravilhoso!! Grudei os olhos na tela e me surpreendi quando percebi que havia prendido a respiração também! Que intenso, que lindeza! Adorei. E estou louca pra ler esse livro agora, já baixei no Kobo. Estou precisando de algo assim. Estou adorando acompanhar teu blog! Parabéns pelo texto incrível!
    Beijão!

    ResponderExcluir
  2. Incrível, Aline! ^_^
    Lembrei de várias coisas lendo sua resenha. Primeiro me lembrei de "Anticristo", um filme do Lars Von Trier. Já viu? No filme o marido (psicólogo) tenta guiar a mulher, orientá-la. E ela também essa característica selvagem, dionísica, como você colocou muito bem. Depois me lembrei de A História Secreta, da Donna Tartt, por ter essa mesma temática racionalidade/descontrole, Dionísio/Apolo.
    Eu tenho uma relação de amor e ódio com Clarice. Tenho muito dificuldade para ler os livros dela. Talvez me falte maturidade. Mas ironicamente me identifico muito com ela.
    Beijo!

    ResponderExcluir
  3. Nossa incrível como você aborda bem a resenha do livro. Nunca li nada de Clarice, mas tenho muita curiosidade de conhecer mais essa autora. Realmente, a mercadologia que fazer dessa autora uma figura de auto-ajuda para adolescentes. Mas é bom saber o verdadeiro sentido dos textos de Clarice. Beijos

    http://joicyrecco.blogspot.com/

    ResponderExcluir