segunda-feira, 29 de junho de 2015

Um método de bovaryzação positiva

O termo "bovarysmo", criado por Jules de Gaultier, refere-se à mais célebre personagem de Flaubert que, influenciada pela leitura de romances românticos, vivia se sentido frustrada, pois faltavam em sua vida todos os acontecimentos fantásticos e emocionantes da ficção. Bovarysmo, então, é a insatisfação decorrente do confronto entre as expectativas e a realidade.

Eu, no entanto, experimento uma espécie de bovarysmo positivo, especialmente quando me confronto com alguma dificuldade. Por exemplo:

Se percebo que por algum engano ou imprevisto, como uma greve de transportes públicos, terei de caminhar uma longa distância que me deixará cansada, suada e que causará o meu atraso, a irritação é natural. Em alguns minutos, lembro-me de David Copperfield caminhando à procura de salvação em direção à residência de sua tia Trotwood. Se o pequeno David conseguiu, por que seria difícil para mim? Dou-lhe a mão e inicio minha caminhada.

Se por situações inusitadas, percebo que não terei tempo de comer (e ficar sem comer me provoca profundo mau humor) e terei de me contentar com um lanche, lembro-me das precárias refeições de Jane Eyre no orfanato ou das sopas ralas que Ivan Denissovitch tomava no campo de trabalho forçado. Degusto meu lanchinho feliz.

Se sou acometida pelo tédio, ou a dureza do fim de mês me impede de fazer meus passeios culturais, lembro de Renée, devorando seus clássicos e livros de filosofia nos intervalos do trabalho, ou das irmãs March criando peças de teatro e jornais caseiros. Sacudo a poeira do marasmo e vou desencavar meus livros, filmes e séries. Que ótima oportunidade para fazer uma maratona com filmes do Ozu.

É um método muito eficiente, eu diria. Em primeiro lugar, ele me dá perspectiva e mostra o quão ridícula e exagerada posso estar sendo. Além disso, supondo que meu problema seja realmente sério, esses personagens me inspiram a ser forte e criativa na resolução de meus problemas. A literatura, de certa forma, nos proporciona experiência para situações que não ainda vivemos.

Em resumo, podemos aproveitar as situações difíceis ou desagradáveis para extrair algo positivo: a reflexão. Em vez de ficar resmungando, analisamos a nossa situação comparativamente à situação literária, refletimos sobre ambas e temos a oportunidade de obter algum esclarecimento. Com sorte, amadurecemos e iniciamos uma mudança de comportamento.

Por fim, bovaryzando loucamente, porque alguma insanidade dá graça à vida, permito-me o devaneio de me incluir feito penetra na turma de personagens (tão queridos!) que convivem juntinhos dentro da minha cabeça. Meus amigos imortais e sempre acessíveis.

:)


4 comentários:

  1. Maravilhoso Aline! Eu também tento bovaryzar positivamente sempre...

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  2. Que lindo, Aline! ^_^
    Eu não conhecia esse termo "bovarysmo", mas é realmente muito pertinente.
    Me lembrei do jogo do contente de Pollyanna, só ao invés de pensar que as coisas podiam ser piores você pensa que as coisas não são tão ruins assim. Risos.
    Beijo!

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  3. Aline, querida! Que texto mais delicinha! Parabéns!

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