sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Entre a Leveza e o Laço



Ontem estava conversando com uma amiga sobre insegurança e amor próprio, e lembramos da Sabine, de A Insustentável Leveza do Ser. Por meu idealismo, tendo muito mais para  a Teresa, com seu engajamento e fé num sentido para a vida. Tomas e Sabine, por sua vez, adotam a "leveza", ou seja, uma perspectiva existencialista baseada na rejeição do sentido e do engajamento, onde o próprio sujeito elabora os valores que quer seguir, e que muito se aproxima do amor fati nietzscheano,  em que o indivíduo aceita os acontecimentos que se lhe impõem, sem revolta ou culpa. 

Esse romance mexe muito comigo e é maravilhoso, mas — Kundera, Nietzsche e Sartre que me desculpem — não consigo me identificar com Tomas e Sabine. Embora, como Sabine, eu tenda ao isolamento e ao mergulho na arte, não consigo conceber como inteiramente positiva a total falta de vínculo com pessoas. Estou longe de ser a pessoa mais popular e bem relacionada do mundo, mas vejo beleza em construir, manter e cultivar relacionamentos. É muito difícil, às vezes dói pra caramba, mas também traz muitos momentos felizes e gratificantes. Trocar é uma espécie de coragem. Coragem de se expôr, de se abrir, de se transformar e de receber algo inusitado ou insuspeitado em troca. Prefiro muito mais essa troca que o isolamento leve e descompromissado.

Boa parte da leveza de Sabine e de Tomas estava na relação com inúmeros amantes, num hedonismo livre e sem amarras. No caso de Sabine, um hedonismo livre, sem amarras e completamente avesso à feiúra. Esse tipo de recusa (porque há muita recusa nessa leveza), parece-me muito covarde às vezes, e não me tem apelo algum. A recusa da feiúra, inclusive, soa-me como uma espécie de autoalienação.

Como Teresa, tendo a fazer stage dive nos meus relacionamentos mais sólidos (não só os amorosos) e acabo, vez por outra, eviscerada — o que também não é bom —, e desconfio que o objetivo, no meu caso, seja um meio caminho entre alguma leveza e certo comprometimento.

Essa leveza envolveria menos expectativas em relação às pessoas, menos necessidade de reiteração e menos dependência. Mais que tecer laços tênues com vários amantes e amizades líquidas (para tomar emprestada uma expressão de Bauman), quero ser uma amante muito foda de mim mesma — o que não compreendo como autocentramento negativo, mas como busca incessante de autoconhecimento e autodesenvolvimento. Além disso, a ideia de estabelecer o sentido que me norteia soa muito atraente e libertadora. Mas acredito que isso possa ser vivido em consonância com a troca, com a experiência mútua, com o aprendizado conjunto, desde que não envolva dependência.

O maior empecilho dessa empreitada é ajustar os ponteiros do coração com o da razão. As coisas parecem muito simples quando refletidas, mas são mais árduas quando executadas. Nesse sentido, duas mulheres têm me chamado muito a atenção: Simone de Beauvoir e Susan Sontag. Não sou grande especialista em nenhuma das duas, mas ambas me pareceram pessoas genuinamente dedicadas ao autodesenvolvimento. Estou lendo, no momento, O Segundo Sexo, de Beauvoir, e A Vontade Radical, de Sontag, mas estou de olho mesmo é em Tête-a-tête — espécie de biografia de Beauvoir e Sartre — e nos diários da Susan. Quero saber o que essas mulheres extraordinárias viviam na esfera mais pessoal, como elas superavam as inseguranças e dificuldades. Não tenho certeza se esses livros ajudarão na minha própria jornada, mas, caso não ajudem, já estarão contribuindo para o meu processo de conhecimento do ser humano, logo, para o meu autodesenvolvimento. 

Viver a realidade dos relacionamentos interpessoais é experimentar instabilidades e incertezas. Ainda assim, quero tentar essa difícil, mas também delicada, arte de proporcionar laços suficientemente firmes, mas que não estrangulem nenhum dos envolvidos.

5 comentários:

  1. Acho que a dupla que deu mais certo foi quando a Tereza foi fotografar Sabine, era os opostos se atraindo, de tao diferentes, elas se complementavam. O Tomas era um "bananao" no meio das duas, nao consegui me simpatizar com ele. Até queria ser mais desapegada como Sabine, mas acabo sendo um pouco Tereza, pesada.

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  2. Como eu estava com saudade de seus textos <3
    Preciso reler A insustentável leveza do ser. Eu gosto muito de gente e vejo muito essa beleza que você descreveu nos relacionamentos. Acho que doer e machucar faz parte e não seria tão bom se fosse perfeito. Mas tenho essa tendência ao isolamento que de vez em quando também acho necessária.
    Também estou louca para ler os diários da Sontag e acho que você vai amar a biografia.
    Um Beijo!

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  3. The best post ever!

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  4. Lerei esse livro o mais breve possível,aguçou a minha curiosidade.

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