terça-feira, 18 de agosto de 2015

Off The Ground


Hoje estou ouvindo o Off The Ground, um dos meus discos favoritos do Paul. É um disco peculiar porque o Paul resolveu extravasar seu lado engajado. Costumo fazer piada de que esse é seu disco eco-chato e, embora eu ame a maioria das melodias nesse disco, algumas letras deixam um pouco a desejar se considerarmos o padrão "Sir-ex-Beatle-Fab-genious".

Todos sabemos que na briga com John, Paul ganha nas melodias e perde nas letras. Ainda assim, Paul é capaz de fazer melhor do que em certas canções, a saber:

"Looking for Changes" - música em prol da causa vegana. Paul vai falar que viu bichinhos sofrendo em testes laboratoriais e basicamente vai desejar que os cientistas recebam choque nos próprios cérebros. Isso acompanhado de uma melodia pop-rock dançante cheia de energia. Eu canto amarradona, mas sempre dou risada. Esse é o tipo de comentário que a gente faz na roda de amigos, não? "Numa tourada, sempre torço pela parte que não escolheu participar da luta". Mas daí a criar refrão pop em defesa dos "fellow creatures" (só eu achei essa expressão muito cafona?), achei um pouco excessivo. Além disso, não acho que a imagem pública que o músico projeta sustente esse discurso de ativista revoltado.

Paul já mostrou que sabe fazer letras mais sofisticadas, como quando tratou da questão racial na belíssima e sutil "Black Bird". Outra música que tem uma melodia linda e um refrão contagiante é "Peace in the neighbourhood". A letra, no entanto, é a celebração do piegas e do clichê. Nela Paul fala do mundo ideal, dos bons tempos perdidos, da "love vibration" (?) e se pergunta como a esperança pode se manter viva. Acho que fiquei velha e cínica demais pra esse álbum. 

Dois momentos em que os Beatles fizeram canções sobre o desejo de uma vida idílica, de modo mais interessante são "Yellow Submarine" e "Octopus's Garden", só que para quebrar esse tom de mensagem-da-tia-católica-na-oração-da-ceia-de-Natal, os caras criaram mundos fantásticos e psicodélicos: o jardim dos polvos e a Atlantis rousseauniana do submarino amarelo. Muito mais legal reivindicar a paz com metáforas louconas.

"C'Mon People" é outra que amo ouvir e cantar, mas com cuja letra tenho uma relação um tanto ambígua. A música fala de esperança em relação ao futuro e tem arranjos e melodia absolutamente perfeitos. Mas quando o Paul convoca "the minstrels from the ancient shrine", acho que ele está falando com os ets sobre o futuro das galáxias. Esse verso esquisito, mas gosto dele, como um prazer culpado.

E são justo essas as melhores melodias do álbum. Há outras mais genéricas ou menos específicas no que tange ao engajamento que são bem boas também, como "The Lovers That Never Were" e "Biker Like an Icon". Nessa última, Paul conta uma historinha sobre o amor bandido de uma moça obcecada por um motoqueiro. A música é bem gostosa e integra o grupo de narrativas que ele dedicou às mulheres ("She's leaving Home", "Eleanor Rigby", "Another Day").

Não é todo mundo que sabe fazer proselitismo musical com categoria. (Lembrando agora com amor de Nação Zumbi e Rage Against the Machine). Mas Paul é tão maravilhoso em tantas coisas... Fico até emocionada quando vejo que ele também tem suas fraquezas de vez em quando. Como a fase da bateria eletrônica  (argh!). Mas isso fica para um post futuro que esse aqui já se estendeu demais.


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