quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Frankenstein, ou o Prometeu Moderno



Publicado em 1818, Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, foi o primeiro romance da escritora inglesa Mary Shelley, e sua obra-prima. Escrito quando a autora contava somente dezenove anos, o romance é um verdadeiro trabalho de gênio e profundidade.

Filha do filósofo anarquista William Godwin e da escritora feminista Mary Wollstonecraft, Mary teve contato desde muito cedo com intelectuais de destaque, que frequentavam a sua casa. Posteriormente, ela se casaria com o poeta romântico Percy Shelley, cujo trabalho e personalidade encontrariam ressonância em seu livro mais notável.

A história de Frankenstein surgiu a partir de uma brincadeira na casa de Lord Byron, que propôs aos presentes um concurso de histórias de terror. Embora, a princípio, Mary não tenha conseguido apresentar a sua história, dias depois, ela chegou ao esboço do que seria o seu primeiro romance. Narrado em sua maior parte em formato epistolar, Frankenstein narra a história do cientista de mesmo nome que decidiu criar um ser vivo a partir de membros de cadáveres.

A história tem início quando o doutor Victor Frankenstein é resgatado, à deriva e com a saúde debilitada, por outro cientista, Walton, no polo Norte. As cartas que compõem o romance são de Walton para sua irmã e é através delas que temos acesso à história de Frankenstein. Percebendo as largas ambições científicas de Walton, Frankenstein decide lhe contar sua desafortunada trajetória, de modo a alertá-lo quanto aos perigos de tentar se equiparar a Deus — por isso a referência a Prometeu, o titã que roubou o fogo de Zeus e o deu de presente aos homens, sendo duramente punido por isso.

Com uma narrativa elegante, a história é apresentada de forma gradativa, explorando o mistério, mas também se utilizando da minúcia descritiva na criação de atmosferas. O romance tem inúmeras cenas sombrias e assustadoras, que o localizam no gênero de terror gótico. No entanto, não se deve reduzi-lo a isso, pois o texto pode ser lido por diferentes perspectivas:

Em primeiro lugar, o romance é considerado a primeira obra de ficção científica da história, uma vez que aborda a geração de vida por meio de galvanização. Na juventude, Frankenstein flerta com os alquimistas até que se desilude, mas seu fascínio pelo elixir da vida acaba se transferindo para outras abordagens das ciências naturais, com estudos da obra de Luigi Galvani e de Erasmus Darwin (avô de Charles Darwin). E é com um olhar crítico que Shelley vai desenvolver essa história.

Mary Shelley, assim como seu esposo Percy e o amigo Lord Byron, integravam o grupo da segunda fase romântica da literatura inglesa. A escola romântica se opunha ao racionalismo predominante durante a revolução industrial, por isso a crítica à hipervalorização de uma ciência que, supostamente prezaria pelo bem estar humano, mas acabava incorrendo, muitas vezes, na negligência e na violência contra o indivíduo.

A estética romântica também se mostra na abordagem subjetiva na natureza, na qual essa se transforma de acordo com os sentimentos do personagem. As tormentas e geleiras espelham os turbilhões, o desespero e a  desolação dos personagens, contribuindo, também, para a atmosfera gótica da história. Esse recurso se opõe à postura cientificista que reduzia a natureza a mero objeto de estudo.

Essa crítica passa também por uma abordagem existencialista. A Criatura de Frankenstein, que jamais recebe um nome, surge ingênua e se corrompe no contato com outros homens, tal como os postulados de Rousseau. Seu maior dilema é a solidão advinda da repugnância que sua aparência causa nas pessoas. É o ressentimento decorrente desse isolamento forçado que faz a Criatura cometer atrocidades contra os homens. Seu processo de aprendizado passa por uma formação humanística: ele lê o mundo através da literatura e inicia uma reflexão filosófica acerca da própria existência. Essas reflexões permitem que ele se reconheça como um outro — sem uma história que o conecte à humanidade — e, nesse lugar de alteridade, ele é capaz de perceber a essência do homem e suas incoerências.

Uma abordagem psicossocial se verifica na recusa da aparência grotesca da Criatura pelo homem, em dois níveis que se interpenetram:  no primeiro, o homem teme o desconhecido, vê no diferente uma ameaça à qual reage de forma violenta; no segundo, há a crítica à superficialidade das pessoas, que julgam a Criatura pela aparência — com exceção do velho cego que, imune ao impacto de seu aspecto físico, aceita ouvir sua história.

Ainda sob uma perspectiva psicológica, pode-se dizer que a Criatura representa um duplo de Frankenstein, a parte recusada de sua interioridade. Enquanto Frankenstein se afasta da família em busca de sucesso científico, a Criatura incorpora sua face mais sentimental e imprecisa, amorfa e descontrolada, ávida por contato e interação.

Muitas outras leituras de Frankenstein ou o Prometeu Moderno podem ser feitas de forma proveitosa, e é impressionante como a maioria delas se mantém atual. Se a Criatura se rebela contra um poder que a relegou a um destino de desolação, nós também, em diferentes medidas, nos vemos manipulados por instâncias como a ciência, a tecnologia, o estado, a mídia. Por baixo do discurso de conservação da espécie humana que orientava Frankenstein havia muito de egoísmo e de intolerância, e esse discurso é utilizado com muita frequência na atualidade.

Tecendo um diálogo crítico com diversas correntes estéticas e teorias do conhecimento,  Frankenstein ou o Prometeu Moderno desenvolve, de maneira notável, uma leitura alegórica da natureza humana.

Um comentário:

  1. Agora que finalmente escrevi meu post sobre Frankenstein, estou lendo as opiniões dos amigos. Você expressou muito bem os assuntos abordados por Shelley, Aline! De fato, há tantas interpretações que, a cada resenha lida descubro algo interessante e que eu não havia notado.
    Sou só amor por Frankenstein!
    bjo

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