sexta-feira, 4 de março de 2016

Ana de Amsterdam



Que surpresa boa foi o Ana de Amsterdam. Chegou a mim como dica da Tati, que viu a Inês indicando. A viu a indicação também e me mostrou o livro na livraria. Ana Cássia Rebelo é (ou era, não sei) jurista em Portugal, mãe de três crianças, e escreve um blog-diário bastante confessional — o Ana de Amsterdam. O blog chamou a atenção de um editor que sugeriu a publicação do livro, o que aconteceu em 2015 em Portugal e esse ano no Brasil.

Os textos de Ana são de uma sinceridade visceral. Revelam a condição feminina de modo honesto e pouco condescendente, tocando e revolvendo inúmeros tabus, como certas desilusões ligadas à maternidade, desejo sexual, frigidez, envelhecimento.

Ana, de certa forma, constrói uma crônica acerca da mulher contemporânea, ao mesmo tempo em que oferece um olhar muito único e pessoal. Ela diz em seus escritos que sofre de depressão, e vários de seus textos revelam essa relação com o mundo mediada por uma melancolia sempre presente, por uma tristeza constante que, não raro, excede ao desespero.

Antes de adormecer, chega-me sempre a mesma imagem: dois pulsos, um corte ligeiro em cada um deles, lágrimas de sangue escorrem lentamente e ensopam um tapete felpudo cor de café com leite. Não é uma imagem terrível ou angustiante. Não me assusta nem me preocupa. É uma imagem como outra qualquer. Faz lembrar as chagas de um Cristo padecente, mas sereno.

Lembrei muito de Sylvia Plath nessa abordagem da morte enquanto alívio. Prossegue-se na vida com a consciência dessa saída de emergência sempre disponível. Mas esse "refrigério" concorre com outros desejos, com outras pulsões constituintes da subjetividade, pois, como a Ana da música de Chico Buarque, que dá nome ao blog e ao livro, há de se "arriscar muita braçada na esperança de outro mar".

Porém, mal saí da loja, percebi a irracionalidade do meu gesto. A compra de tais sapatos não é compatível com o meu desejo de morte. Para que quero uns sapatos de duzentos e dez euros se tomar os setenta e três comprimidos, antidepressivos, ansiolíticos, Voltaren e Clonix, que estão dentro da caixinha roxa? Senti-me estúpida e ri-me da minha desgraça.
Sua relação com o mundo é afetada, ainda, pela herança familiar, em especial, no que concerne às mulheres — a mãe, as tias, as avós — de origem indiana. Nesse sentido, seus textos frequentemente remontam ao bordado da própria história, a rituais e crenças, a tradições culturais e familiares que ajudaram em sua constituição psíquica. Ana parece viver, a todo momento, uma falta, ou melhor, uma saudade de algo perdido — algo bonito e singelo que poderia-lhe agregar sentido e força.

Continua a olhar para as crianças. As palavras da minha tia resvalaram na minha indiferença, ganharam asas e, como pássaros pequenos, fogem para longe. Para a copa do tamarindeiro. É lá que se escondem todas as palavras-pássaros que saem da boca da minha tia. A verdade, porém, é que em Goa não me sinto estranha. Nada me causa repulsa, agonia ou comiseração. Nem o clima, nem os mosquitos, nem a sujidade que muita gente, torcendo o nariz, em jeito de aviso, me assegurou grassar por toda a parte. Goa entrou dentro do meu corpo. Derramou-se em cores, com todos os seus excessos e encantos, na minha vida. Como se fosse uma pessoa.

O texto de Ana é simples, mas incisivo. Traz uma fluidez pontuada aqui e ali por momentos de intenso lirismo. Inclusive, há inúmeras incursões mais notadamente literárias, onde sentimentos e pensamentos são transmutados em metáforas, alegorizados em histórias que Ana cria sobre si e sobre aqueles que observa.

Descubro os meus órgãos espalhados pelo quarto. Recolho os meus pedaços de corpo. Vasculho cantos e sombras. O coração está por baixo da cama, esquecido entre dois pares de sapatos velhos. Ainda bate. Encaixo-o dentro de mim. Suturo-me com a linha que utilizo para apertar os rolos de carne.

Tenho um certo interesse por livros oriundos de blogs. Gosto desse fenômeno da partilha despretensiosa que ganha corpo e relevância, então li quatro ou cinco publicações do tipo, de abordagens bastante diferentes. De todos, o livro de Ana foi o que calou mais fundo. Porque, através dessa escrita forte e poética — vertida em suor e sangue —, ele traz um incômodo muito pertinente e necessário, e que soa muito familiar ao mesmo tempo. Por isso fica.

8 comentários:

  1. Que interessante esse livro! É bem diferente do que o que a gente costuma ver, e diferente até do que eu esperava pela capa/título haha Não se no momento eu leria, não estou muito nessa vibe, mas curti a premissa. :)

    Mago e Vidro

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  2. Line, como eu disse anteriormente, resenha linda e tão completa <3
    Senti as mesmas coisas que você com Ana de Amsterdam e essa saudade que você falou é muito da melancolia dela mesmo, uma busca por um objeto de amor perdido. Eu lembrei bastante de Sylvia também e do Livro do Desassossego.
    A sinceridade brutal como ela fala do seu corpo mexeu comigo em alguns momentos, aquela sensação de quem chama a atenção para algo que normalmente está escondido.
    Eu também tenho muito interesse por livros oriundos de blogs, acho que são a herança de um dos meus gêneros literários favoritos, os diários... Infelizmente, cada vez mais vejo sumir. O encontro com Ana foi maravilhoso nesse sentido.
    Beijo e que bom ver seus textos aqui, sempre tão maravilhosos!

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    1. Lindona, eu demoro a escrever, mas você sempre me acompanha.
      É uma pena que geograficamente estejamos separadas, mas essas leituras que compartilhamos me faz sentir mais próxima, num diálogo rico que me ensina muito!
      Eu é que agradeço por essa dica maravilhosa!
      Você não falha nunca!

      Beijo!

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  3. Aline,
    Linda sua resenha. Acho que a Ana Cássia conquistou por aqui grandes fãs, pelo que já ouvi da Tati e de você também. Foi um livro que mexeu bastante comigo.
    E agora que o livro acabou ando sempre de olho no blog dela, querendo ler mais :)
    beijo,
    Pipa

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    1. Também tô lendo o blog dela, Paula.
      Gostei demais!
      :)

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  4. A MiH estava lendo também e elogiou. Agora tem também o aval seu e da Tati. Fiquei curiosa. Ainda mais porque tem essa pegada diário que a Tati mencionou.
    bjo

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    1. Recomendo bastante e espero que goste, Mi!
      :)

      Beijo!

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