sábado, 26 de março de 2016

Arco de Virar Réu



O emaranhado de vozes em sussurros e a movimentação fleumática se fundem numa única imagem, de pinceladas impressionistas, na qual as cores renunciam às suas forças vivazes para se igualar numa tonalidade lamentativa e difusa. — Pg. 88

O romance Arco de Virar Réu (2016) é a estreia do editor Antonio Cestaro na literatura de ficção (ele tem dois livros de crônicas publicados). O livro narra em primeira pessoa o processo de deterioração psíquica do protagonista — um historiador social com grande inclinação para os estudos antropológicos. Identificando-se brevemente como J. Bristol, o protagonista narra sua conturbada trajetória mental, desde o esfacelamento familiar — com a partida do pai, o enlouquecimento do irmão e o embotamento da mãe — até o ápice de sua condição delirante.

A relação com a doença mental tem início através do irmão mais novo que, ainda na adolescência, inicia um processo de descolamento da realidade em benefício de uma narrativa de guerra particular e constante. Esse processo culmina no diagnóstico de esquizofrenia. Durante um simpósio sobre hábitos indígenas, o protagonista tem uma espécie de epifania: reconhece que há, nas falas alucinatórias do irmão, um padrão ritual de desmembramento humano semelhante às práticas das tribos antropofágicas. Essa constatação, curiosamente, leva-o a tentar identificar alguma espécie de sentido nas narrativas do doente, e esse movimento perigoso de penetração nos meandros do tresvario prenuncia a cisão que começa a se alastrar no interior dele próprio.

A doença do protagonista tem início com pesadelos recorrentes, onde ele vivencia experiências rituais e de batalhas indígenas, algumas vezes entremeadas com as narrativas militares do irmão. Há algo de simbólico nesse delírio masculino que leva os indivíduos de volta a uma condição guerreira, onde a luta pela sobrevivência é encenada pela força dos próprios braços, numa espécie de restauração de protagonismo primitivo.

Esse caráter onírico dos delírios iniciais se desdobra no corpo da narrativa, que se apresenta nebulosa, vaga, repleta de lacunas. O relato desse narrador não é nada confiável e a extrema concisão dos capítulos e economia de dados oferecidos denuncia a iniciativa deliberada de esconder. A falta de sentido e de respostas experimentada pelo protagonista é replicada na experiência de leitura, através da qual obtemos muito pouco — o que pode constituir um incômodo, já que algumas relações e fatos da trama parecem carecer de desenvolvimento e consistência. Essas faltas, no entanto, cabem bem num discurso manipulador de um indivíduo que por um lado tenta adiar certas revelações importantes, e por outro não mais consegue diferençar o mundo real das alucinações que produz.

Desnorteado pelo agravamento acelerado de sua doença, o personagem decide escrever, registrar suas memórias e sonhos, ciente de que boa parte de seus escritos não corresponde à realidade. Essa imprecisão, no entanto, nunca é suficiente para esmorecer suas tentativas de entendimento, sua busca por alguma autonomia. A leitura atenta do relato principal, ou seja, do romance mesmo, proporciona certas revelações que jamais serão anunciadas diretamente pelo narrador protagonista, mas que permitem a compreensão de sua história.

Um dos pontos de destaque do livro é o manejo original da linguagem. Enquanto no relato principal  o protagonista se utiliza de uma série de metáforas e associações inusitadas que sugerem o gradativo afastamento de uma atividade mental regular, as falas delirantes revelam-se profundamente poéticas, como se a loucura permitisse uma relação mais livre e menos condicionada com a linguagem — relação essa que toda uma geração de poetas surrealistas se esforçou por alcançar. 

As interrogações, com seu formato de gancho, parecem, com o passar do tempo, designadas ao agrupamento nas paredes internas da minha cabeça. — Pg. 93 
Sinal de exigir resposta ao chamamento! Pensar vergalhões de esmagar conquistas ancorados no brio. — Pg. 134

A eficiência do romance, no entanto, esbarra numa certa falta de tensão. A narrativa soa excessivamente clara, além de curiosamente distanciada para um narrador delirante que experimentou repetidos surtos de paranoia. A descrição desses episódios é feita com um olhar clínico, frio, (poder-se-ia supô-lo embotado por medicamentos e procedimentos terapêuticos, o que ainda assim soaria forçado), mas meticuloso e controlado além do que se espera.

Considerada essa inconsistência, Arco de Virar Réu se mostra uma estreia interessante, ousada, que arrisca um tratamento original da linguagem e que investiga os modos por que a busca de sentido se manifesta numa mente dilacerada.


*esse livro foi uma cortesia da editora Tordesilhas.

2 comentários:

  1. Que capa maravilhosa! Acho que tem um tanto de delirante como parece ser a narrativa. Eu gosto de narrativas inconstantes, como o pensamento humano é. E é fascinante tentar imaginar o que se passa na mente de pessoas com distúrbios psíquicos mais graves, ao mesmo tempo que é assustador.

    www.umavidaemandamento.blogspot.com.br

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    1. Sim, a capa é linda e dialoga com o conteúdo muito bem.
      Também acho fascinantes livros sobre distúrbios mentais. Tem um excelente chamado A Menina Submersa, conhece?

      Abraço!

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