quarta-feira, 16 de março de 2016

M Train - uma viagem melancólica nos trilhos da memória



The dead speak. We have forgotten how to listen.— Pg. 161

Após a calorosa recepção de Só Garotos (2010), o segundo livro autobiográfico da poeta e musicista Patti Smith era esperado com ansiedade. Publicado nos Estados Unidos no final de 2015, M Train chega ao Brasil em de Março de 2016, com o título Linha M, pela Companhia das Letras.

Muito do encanto de Só Garotos se deve à delicadeza e à lucidez com que Patti descreve seu período de formação como artista na fervilhante Nova Iorque das décadas de 1960 e 1970, ao lado do amigo e antigo amante, o fotógrafo Robert Mapplethorpe. Naquela cena rica de acontecimentos políticos e culturais, Patti e Robert batalharam juntos, moraram em pocilgas, dividiram parcas refeições, conheceram algumas das mentes mais estimulantes e criativas da época enquanto buscavam encontrar uma voz própria no mundo das artes. O livro é um tributo a esse período formativo e a essa amizade, entremeado pelas idiossincrasias e referências artísticas (inesgotáveis) de Patti. Ler seu texto é saborear um delicioso tom nostálgico, mas de uma nostalgia cheia de orgulho e gratidão.

Em M Train, essa nostalgia também está presente, só que com mais força. Aqui, Patti vai abordar um período já mais maduro de sua vida, um momento marcado por perdas importantes. Se Só Garotos termina com o falecimento de Robert em decorrência da Aids, M Train vai resgatar outras perdas: a do esposo da cantora, Fred Sonic Smith, e a de seu irmão, Todd. Só que o livro não trata só disso. Enquanto Só Garotos descreve um período específico de forma mais linear, M Train reúne eventos cronologicamente esparsos, seguindo uma lógica mais temática. Esses eventos revelam um certo padrão de comportamento da autora, uma vez que voltam sempre para os mesmos elementos: o café, os livros, a fotografia, as viagens, os sonhos.

Em comparação com Só Garotos, M Train é bem mais melancólico e triste, apresentando um retrato poético de uma artista às voltas com a solidão e com a saudade. Após as duas perdas citadas, e já com os filhos crescidos, a rotina básica de Patti é ler, escrever e assistir séries policiais acompanhada de seus gatos. Além disso, todos os dias ela caminha até o seu café favorito, senta sempre na mesma mesa munida de caderno e caneta, faz o pedido de sempre e fica ali, pensando, escrevendo e planejando. De vez em quando, surgem viagens para conferências, apresentações e palestras, das quais ela se aproveita para encontrar amigos, fotografar e visitar os túmulos dos artistas que admira. É um duplo movimento de retorno às memórias e de criação de outras novas - o que explica o M do título. Só que essas viagens não se dão só nos trilhos da memória, mas também nas malhas da própria mente, já que Patti descreve vários de seus sonhos e os interpreta em busca de resposta para os seus dilemas.

Memory, mind... Miss. O tema principal dessa "viagem" é a saudade, abordada sob variadas formas. As mais dolorosas serão, claro, às relativas às pessoas. No entanto, Patti descreverá, ainda, as ausências sentidas pelo fechamento de seu café favorito, pela devastação da cidade litorânea onde ela pretendia residir, pelo esquecimento de objetos perdidos pelo caminho, e até mesmo pelo encerramento de uma de suas séries policiais favoritas. Tudo isso narrado com a delicadeza e o alumbramento típicos de sua escrita, e pontuado por inúmeras referências a artistas e suas obras. Em cada capítulo, Patti discorre, de forma poética e idiossincrática, sobre a importância de cada uma dessas coisas, sobre sua beleza e sobre como foram capazes de lhe acender a chama do entusiasmo.

We want things we cannot have. We seek to reclaim a certain moment, sound, sensation. I want to hear my mother's voice. I want to see my children as children. Hands small, feet swift. Everything changes. Boy grown, father dead, daughter taller than me, weeping from a bad dream. Please stay forever, I say to things I know. Don't go. Don't go. — Pg. 209

Images have their way of dissolving and then abruptly returning, pulling along the joy and pain attached to them like tin cans rattling from the back of an old-fashioned wedding vehicle. — Pg. 232



É preciso ressaltar que, apesar da melancolia e da solidão, e um pouco por causa delas também, há muita beleza nesse relato. Patti tem uma vivacidade e uma curiosidade que a impedem de chafurdar na depressão. Em Só Garotos já era patente como a arte, principalmente a literatura, guardavam um papel determinante na formação da riqueza espiritual da autora. Patti pode fraquejar, mas se reergue graças a esse repertório íntimo, que a fortalece e ao mesmo tempo a suaviza. Ainda que solitária e vivendo perda atrás de perda, Patti foi aprendendo a reagir, a manter o interesse, traçando  planos e tentando realizá-los, descobrindo novos desejos, viajando, movendo-se. Nesse processo, alguns elementos lhe servem de consolo na lida diária: o café, os gatos, os livros, as séries policiais.

In the weeks to come I would sit at my corner table reading nothing but Murakami. I'd come up for air just long enough to go to the bathroom or order another coffee. 'Dance Dance Dance' and 'Kafka on the Shore' swiftly followed Sheep Chase. And then fatally, I began 'The Wind-Up Bird Chronicle'. That was the one that did me in, setting in motion an unstoppable trajectory, like a meteor hurtling toward a barren and entirely innocent sector of earth— Pg.94

Pode-se dizer que, de forma sutil e secundária, o livro erige uma ode a esses afagos cotidianos. Por outro, de modo mais conflagrado (ainda que não intencional), os relatos de M Train ajudam a desmistificar a velhice como um anoitecer estagnado, onde nada emocionante pode acontecer. Ainda que de outra ordem, novas experiências são possíveis. A propósito, quem é capaz de olhar para Patti Smith e pensar em velhice?

Aquilo e aqueles que perdemos se vão, mas deixam muito de si conosco. E Patti quer nos mostrar que, empreendendo jornadas íntimas, somos capazes não só de acessar os ausentes, como de lhes restituir o poder de nos transformar. M Train é uma bela elegia sobre a saudade, cantada por quem acredita que não é preciso abdicar do ânimo quando as perdas começam a se acumular.

4 comentários:

  1. 'Só Garotos' está na minha lista de leitura há milênios! Quem sabe o livro novo sirva para me 'obrigar' a ler o anterior?
    Bjo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. São dois livros deliciosos, ainda que com tons diferentes e sobre épocas diferentes da vida. :)

      Excluir
  2. Ótima resenha <3
    Foi mais um motivo pra me fazer querer ler mais esse livro da Patti Smith (:

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada!
      É uma ótima opção para quem já conhece a Patti.
      :)

      Excluir