segunda-feira, 7 de março de 2016

Quarenta Dias


Estou ficando curada da maluquice só por escrever nesse caderno? Eita tratamento barato! Se o remédio é bom, vamos lá continuar

Publicado em 2014, Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende, foi o romance vencedor da última edição do prêmio Jabuti. 

O romance narra a história de Alice, uma senhora paraibana que se vê enredada numa trama familiar, um tanto absurda e tirânica, que a obriga a se mudar para Porto Alegre. Nessa cidade estranha, Alice irá, como sua xará do clássico de Carroll, percorrer uma jornada longa, difícil e labiríntica, em busca de entendimento e superação.

Eu nem percebi, naquele dia, quando saí de casa atrás de um  quase imaginário, um vago Cícero Araújo, que estava, na verdade, correndo atrás de um coelho branco de olhos vermelhos, colete e relógio, que ia me levar pra um buraco, outro mundo. Também, que importância tinha? Acho que eu teria ido de qualquer jeito, só pra cair em algum mundo, sair daquele estado de suspensão da minha vida num entremundo, sem nem por um momento me perguntar como nem pra onde havia de voltar.

Nessa jornada, Alice viverá inúmeros momentos de desorientação, mas também de reconhecimento. Irá perder quase tudo para recuperar ainda mais. E,  nesse processo, a literatura comparece como um apoio, como as cartas na manga de que a personagem se utiliza para não se perder completamente, para se reconstruir.

Narrado em primeira pessoa, na forma de um relato confessional bastante fluido e profundamente carismático, Quarenta Dias traz uma personagem deliciosa — franca, arretada, generosa, sincera — que se abre para um aprendizado clariceano de troca com o mundo, que de repente se vê destituída de referências, mas que se redescobre e se compreende no exílio.

Ufa, Barbie, está exausta, não é? Eu estou. Exausta mas contente porque sinto mesmo os restos da raiva escorrendo de mim pro seu papel, minhas ideias ordenando-se, eu lhe contando tudo mais ou menos com começo, meio e fim, ou fim, meio e começo
Não, não estou doida pra sempre. Não

Maria Valéria, que foi percorrer Porto Alegre em pesquisa de campo para o romance, criou uma cidade labiríntica, efervescente, e um tanto enigmática, onde pobres e marginalizados resistem, perseveram e se apoiam, e cujas jornadas, de certo modo, se entremeiam para engrossar a trama que há de reerguer a protagonista. A trajetória de Alice, que se inicia marcada pela perda, pela desconstrução e pelo desamparo, culminará, a partir de uma experiência simultânea de choque e de identificação cultural, num processo de ressignificação dos espaços, das pessoas e da bagagem histórica que possibilitará a reinvenção de si mesma.

Marcado por um olhar sensível e por um jogo intertextual admirável, Quarenta Dias constrói um drama pessoal muito verossímil que tangencia de forma eficiente as nossas complexidades culturais e os nossos abismos sociais.

5 comentários:

  1. Eu devorei esse livro de um jeito <3 é uma delícia e tão profundo não é? Sabia que ia gostar porque só pessoas queridas me indicavam mas não esperava tanta força no texto. Ela vai direto ao ponto mas não deixa de ser poética. Esse desvelar os abismos sociais foi uma coisa que me marcou muito, e já percebo que sim, é uma característica que se repete em outros livros. Devo confessar que foi muito bom esse encontro com Maria Valéria, estava um pouco decepcionada com a mesmice da literatura brasileira contemporânea. Ler uma escritora que fala de todas as gentes é sempre muito bom!!
    Beijo!

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    1. Também era meio reticente com literatura contemporânea e vinha tentando baixar a guarda. Encontrar uma autora com a Valéria é inspirador, de fato. Certeza que lerei mais coisas dela.
      :)

      Beijo!

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  2. Olá Aline, gostei muito de sua resenha, a encontrei na página da própria Maria Valéria - que chique! - Indico a leitura do seu mais novo livro, Outros Cantos. Ele tem uma estrutura narrativa muito próxima de Quarenta Dias - característica do romance contemporâneo, mas tem "cantos" belíssimos ambientados na pobreza e na beleza do sertão nordestino. Amei seu cantinho, até me inspirou para fazer o meu, quem sabe?!?! Abraços.

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  3. Nossa, amei a sua resenha Aline Aimee. Não sabia que você tinha o blog, pensei que você só tivesse o canal. Dizem que ela tem uma semelhança com a Clarice Lispector, é verdade? Estou muito querendo ler este livro depois de ouvir muitas pessoas o elogiando.


    Beijos!!

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    1. Não acho ela muito parecida com Clarice, não, mas é ótima também!

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