sexta-feira, 29 de julho de 2016

Dias de abandono


Eu era íntegra e íntegra continuaria a ser. A quem me faz mal, devolvo na mesma 
moeda.  Sou oito de espadas, sou a vespa que  pica, sou a cobra escura. Sou o animal
 invulnerável que atravessa o fogo sem se queimar. — Pg. 73

Publicado pela primeira vez em 2002, Dias de abandono é o segundo livro de ficção da escritora italiana Elena Ferrante. Narrado em primeira pessoa, o livro conta a história de Olga, uma mulher de trinta e oito anos, mãe de dois filhos, que é abandonada pelo marido, Mário. A protagonista, que havia abdicado de uma carreira breve como escritora para se dedicar à família, vê-se de repente sozinha e responsável pelas crianças, pelo cachorro e pela casa. 

A narrativa é uma descrição primorosa e muito realista do processo de luto de Olga. Cada fase — a negação, a revolta, a desagregação — é construída com muita força e clareza, e traça o caminho que a personagem faz do trauma em direção a uma reabilitação. É como se a personagem explodisse em milhares de fragmentos e depois tivesse de se remontar, tendo de descobrir, ou de criar ela própria, um modo de o fazer.

A minha tarefa, eu pensava, é mostrar que é possível permanecer sã. Demonstrá-lo a mim mesma, a mais ninguém. Se for exposta aos lagartos, combaterei lagartos. Se for exposta às formigas, combaterei formigas. Se for exposta aos ladrões, combaterei ladrões. Se for exposta a mim mesma, combaterei a mim. — Pg. 54

Numa narrativa relativamente curta, 183 páginas, percebemos a transição gradativa da personagem pelos diferentes momentos dessa crise, através de reações, pensamentos e falas muito vívidos e angustiantes. Ferrante constrói com muita eficiência o processo de perda da protagonista. Mulher contida e hesitante, Olga vive uma espécie de desbordamento: perde o controle das emoções e dos elementos ao redor, perde as referências e a noção do real que a cerca, perde-se de si mesma enquanto é consumida por um sofrimento imensurável. Até o seu discurso é afetado pelo descontrole:

Quando eu era novinha gostava do linguajar obsceno, me dava uma sensação de liberdade masculina. Agora sabia que a obscenidade podia causar centelhas de loucura, se nascia de uma boca controlada como a minha. — Pg. 19

Nesse livro, Ferrante antecipa um dos pontos mais importantes da Série Napolitana: a construção das personagens femininas. Se na Série, Lenu e Lila eram mais que esposas e mães, em Dias de abandono, esses dois papéis são trabalhados de forma não idealizada. A relação entre mãe e filha, que muito influenciou as escolhas de Lenu na Série, já aparecem aqui na dupla condição de peso e legado, e, por mais que as personagens insistam em não repetir certos padrões maternos, eles reaparecem em momentos de crise, tornando mais árduo o seu poder de escolha e decisão, mais difícil a sua autonomia. Mas não impossível, e Ferrante explora essa questão com muita segurança.

Minha mãe falava sobre isso com suas funcionárias, cortavam, costuravam e falavam, falavam, costuravam e cortavam, enquanto eu brincava sob a mesa com os alfinetes, o gesso, e repetia a mim mesma o que eu ouvia, eram palavras entre a aflição contida e a ameaça, quando você não sabe segurar um homem, perde tudo, relatos femininos de fins de caso, o que acontece quando, plena de amor, você não é mais amada, é deixada sem nada. — Pg. 12.
Minha mãe me chamou logo para casa, estava nervosa, muitas vezes se zangava comigo sem nenhum motivo, eu não tinha feito nada de mal. Às vezes me dava a impressão de que ela não gostava de mim, como se reconhecesse no meu rosto algo de si que ela mesma detestava, um mal secreto seu. — Pg. 49

Comparado com a Série Napolitana, Dias de abandono é mais direto, menos sugestivo, permite menos inferências, o que funciona para manter a tensão num livro curto sobre uma crise. O texto, no entanto, traz algumas sutilezas, como o paralelo entre as profissões de Olga e de sua mãe — uma escritora e outra costureira, ambas artífices de tecituras. Olga recebeu da mãe retalhos de ensinamentos, tecidos numa malha que lhe pesa na idade adulta. Olga, por sua vez, escreve suas experiências numa tentativa de devolver sentido aos fragmentos de sua vida esfacelada. Há, ainda, a dificuldade de Olga em manusear chaves, como uma metáfora do seu acesso precário ao cerne de suas emoções.

Nas resenhas sobre a Série Napolitana, ressaltei a habilidade que Ferrante tem em unir o melhor de dois mundos: a narrativa ágil e novelesca e a profundidade da análise social e da construção de personagens. Em Dias de Abandono, a autora arrisca um desfecho tradicional, fraco e mais ajustado a histórias românticas açucaradas, que não se encaixa bem nessa narrativa. Esse deslize, no entanto, não chega a comprometer a coesão, o impacto e a verossimilhança desse pequeno e notável texto.


*esse livro me foi oferecido pela editora Globo Livros.

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