segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Essa Menina, de Tina Correia



Publicado em 2016 pela editora Alfaguara, Essa Menina é o romance de estreia da autora Tina Correia. Narrado em primeira pessoa, traz as memórias de Esperança que, vivendo há anos na França e tendo nascido no Nordeste, na quase mágica Paripiranga, diz estar começando a esquecer das coisas.

Imersa numa cultura marcada por rituais, tradições e crendices que conferiam um caráter quase sobrenatural à existência, Esperança, apelidada de Essa Menina por seus familiares, fala de seu olhar ingênuo sobre a tradição regional, sobre política, guerras, comunismo e ditadura. Fala sobre a vida das mulheres nas décadas de 1930 a 1950 e sobre a perda da inocência.

A narrativa gostosa e fluida da carismática protagonista deixaram em mim um sabor de nostalgia por seu conteúdo corresponder ao das histórias que minha avó baiana me contava quando eu era pequena — canções, simpatias e crendices que fizeram parte da minha história familiar. Em tom de conversa, Essa Menina descreve a si mesma com um distanciamento bem humorado, de quem vê graça nos assoberbamentos da menina muito imaginativa:

No dia em que vim ao mundo, num bairro pobrezinho de marré, marré, marré, a luz elétrica chegou à primeira casa da nossa rua. Até então, invejava-se o brilho das casas e dos postes iluminados pela eletricidade a algumas quadras dali. Enquanto a energia não chegava, candeeiros e fifós clareavam nossa escuridão.

Mamãe e duas vizinhas, grávidas, acordaram agitadas naquele dia. Não queriam perder um movimento dos preparativos da inauguração do palacete, mas na noite anterior, com as primeiras contrações, tiveram o pressentimento de que os filhos não tardariam a nascer, o que se confirmou. As filhas das vizinhas chegaram bem na hora da iluminação do jardim do palacete. Cerca de quatro horas depois cheguei eu, com a banda de música do Corpo de Bombeiros, que havia encerrado a festa da Casa dos Peixes tocando na minha porta. Vovô dizia que era para comemorar minha chegada e repetia sorridente a primeira impressão que teve ao me segurar:

— Eitcha, que essa menina nasceu uma coisitinha de nada, magrinha, feinha, uma titica de gente, só pele e osso, meio branca, meio preta, meio índia. Assim, meio barro meio tijolo. Os olhinhos pretinhos espreitavam a gente que nem jabuticaba no pé.

Vivia contando, orgulhoso, minhas façanhas para os amigos. “Olha só o que essa menina faz. Essa menina já fala tudo. Essa menina já sabe engatinhar. Essa menina já sabe andar.”
De tanto ouvi-lo referir-se a mim como “essa menina”, deduzi que esse era o meu nome. Sempre que eu queria alguma coisa, dizia: “Essa Menina quer dormir. Essa Menina tá dodói”.
E o apelido pegou. Em casa, na rua, na escola, só me chamavam de Essa Menina. Mamãe e papai, durante muito tempo, ficaram conhecidos como Sua Mãe e Seu Pai. É que eu cresci ouvindo os adultos falarem “chame sua mãe”, “cadê seu pai?”... Concluí então que estes eram seus nomes. E era assim que eu os chamava:

— Sua Mãe, Essa Menina quer comer.

— Seu Pai, vovô tá chamando.


O livro, no entanto, não é exatamente original, apoia-se em estereótipos em alguns momentos e perde bastante o ritmo, seguindo vagarosamente nos primeiros dois terços, com descrições detalhadas de inúmeros personagens e casos a eles relacionados; e correndo muito no final, quando Esperança amadurece e tem de se confrontar com o agravamento da situação política do país e com certos dilemas familiares.

Em entrevista ao jornal O Globo, Tina aponta suas influências: Gabo, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Dos três autores, bastante distintos quanto ao estilo, Jorge Amado é o único de quem se pode reconhecer uma aproximação possível. Não é preciso mirar tão longe para fazer um bom livro.  E se Essa Menina tem alguns problemas, não é uma estreia de todo má.



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